Crónica de uma Vitória Anunciada

Ontem, cerca de duas centenas de estudantes madeirenses juntaram-se aos seus colegas de outras 25 cidades nacionais e aos milhares de jovens que em várias cidades, em 112 países, fizeram greve às aulas.

A ideia partiu de uma jovem sueca, Greta Thunberg, protestar contra a inação dos governos no combate às alterações climáticas e ao aquecimento global.

Greta tem 16 anos.

Começou por fazer greve às aulas à sexta-feira para protestar sozinha à porta do Parlamento Sueco, sempre na defesa desta causa. Semana a semana, juntaram-se outros jovens que, como ela, decidiram que o facto de não terem idade para votar não é impedimento para que a sua voz se faça ouvir.

A sua luta foi ganhando adeptos a ponto de se decidir a convocar uma greve sem precedentes na história mundial. O número de grevistas em cada cidade pode não parecer demasiado impressionante, mas não podemos ficar alheios ao número total de jovens envolvidos, e principalmente ao número de cidades e de países onde se manifestaram. Este é provavelmente o primeiro protesto planetário. Porque o problema é também global.

A maioria dos que hoje protestaram não votam.

Ainda.

São demasiado jovens, mas os seus familiares, a começar pelos seus progenitores votam. Muitos dos que hoje se estrearam em manifestações votarão pela primeira vez num dos dois próximos ciclos políticos da maior parte dos países democráticos. A sua voz fez-se ouvir hoje. Os governantes mais atentos perceberam ou perceberão nos próximos dias que não poderão continuar a empurrar o problema com a barriga.

Outro dado a ter em conta é que estes jovens que ainda não votam, se preocupam. Quando tanta gente diz por aí que os jovens são fúteis ou que não se interessam por nada, que andam alheados do mundo, eis que a realidade os desmente.

Por causa dos protestos de ontem, acordamos hoje a saber que por todo o Mundo há jovens que se preocupam. Preocupam-se com o seu próprio futuro e querem respostas agora. Ao contrário de muitos políticos que não conseguem ver muito mais além da data das próximas eleições. Estes estudantes sabem que têm de agir já para prevenir os problemas que os vão afetar mais a eles do que aos decisores de hoje.

Do mesmo modo que não votam, muitos destes jovens estudantes não terão participação política formal, mas isso não os impediu de se juntarem em torno de um ideal de bem comum.

Este é um retrato do Mundo de hoje. As gerações mais novas são muito mais informadas do que muitas vezes presumimos, sabem o que querem e mobilizam-se por essas causas.

O futuro passa por aqui. Há uma geração de jovens competentes, rapazes e raparigas, mulheres e homens, que mesmo sem qualquer experiência partidária, não enjeitam a responsabilidade de tomar as rédeas do seu futuro.

Há partidos que já se aperceberam disso e já os convocaram para que possam pôr as suas competências e a sua crença numa Região, num País, numa Europa e num Mundo melhores, ao serviço da sociedade. Outros resistirão, vão demorar mais tempo, mas lá chegarão.

Aos 16 anos, Greta Thunberg, está nomeada para o prémio Nobel da Paz. Mesmo que não lhe venha a ser atribuído (e a minha aposta é que será), esta jovem conseguiu uma vitória extraordinária: Ser ouvida como a porta-voz de uma
geração.