Carolina Deslandes levou a casa para o Coliseu

16 de março de 2019 às 01:46Carolina Deslandes levou a casa para o Coliseu

Carolina Deslandes não levou apenas as canções de “Casa” ao Coliseu dos Recreios, esta noite. Levou mesmo a sua casa: cadeiras, o candeeiro, a mesinha, o sofá e demais material mobiliário, todo suspenso no ar, só para a cenografia. O marido Diogo Clemente também se encaixou a seu lado, por três cançõezinhas. E no final, Carolina Deslandes chamou os pais a palco, para aquele abraço emotivo. Só faltaram aparecer os três filhos da cantora. Mas criançada era o que não faltava no público.

Os espectadores iam acompanhando esta transparência da vida íntima de Deslandes, como quem lê uma autobiografia ou acompanha uma telenovela, só que com canções de que gostam – o que faz toda a diferença.

A meio do concerto, quando Carolina e o Diogo Clemente, à viola, terminam a interpretação a dois de ‘Nos Teus Olhos’, encostam as suas cabeças um ao outro, com as mentes no filho Santiago, a quem a canção é dedicada – sobre esse pequeno ser que “fala muito mais com os olhos do que com as palavras”, como descreve a cantora e mãe de 27 anos. Nestes longos minutos muito lá do lar, Carolina estreia ao vivo uma nova canção, ‘Inquieta’, em mais um momento de intimidade do casal, desta vez estrelado pelos telemóveis circundantes do público, que rodam de um lado para o outro. Depois, Diogo Clemente experimenta um jogo de palavras em que cita a letra da canção seguinte, ‘A Coisa Mais Bonita’, só para falar de Carolina “como a mulher mais bonita que Deus fez” e não a Inês de Castro do D. Pedro.  

Neste álbum de recordações, também vem à baila o avô de Carolina, lembrado no tema ‘Nuvem’. Mas há mais prendinhas da “Casa” de Deslandes, como o ‘Avião de Papel’, inspirado pelo Cavaleiro Andante de Rui Veloso, onde se ouve a presença forte de mulheres e crianças no público, quando cantam e formam uma camada vocal mais aguda. Houve ‘Aleluia’, uma canção simples e singela, aveludada pelo sublinhado de um violoncelo, e ‘Éramos Nós Dois’, com os instrumentos de cordas a envolverem-se todos naquela doçura. Mais adiante, a cantora dá a voz por aquela versão de ‘Circo de Feras’ dos Xutos, em que erradica toda a parte elétrica do original, e, obrigatório, por A Vida Toda, percorrendo os corredores da plateia.  

A Carolina Deslandes que passou pelo Coliseu dos Recreios já está com a cabeça no quarto e próximo álbum. Não se cansou de interpretar canções inéditas, como o impressionante à capela de Não Desistas, com um coro feminino e batucada, a lembrar a música das irmãs francocubanas Ibeyi. ‘Não Te Vás Embora de Mim’ foi outro tema novo, interpretado com o guitarrista Janeiro nas suas costas. 

Convidados foi aliás o que não faltou esta noite. Agir e Diogo Piçarra formaram um trio vocal com Carolina Deslandes em ‘Mountains’. Em ‘Adeus Amor Adeus’, entra a voz poderosa de Raquel Tavares, que conhece bem outros ecossistemas sonoros que não só o fado. E é com Jimmy P que Deslandes inicia o seu único encore, ao som de ‘Contigo’. A balada ‘Não É Verdade’ é o que Deslandes chamava o seu “momento Abrunhosa”, mas que foi só seu, a fechar este concerto de mais de hora e meia. 

Carolina Deslandes é emotiva. Semicerra os olhos e olha para cima para gozar a grandeza do momento, abre os braços no ar e canta, sempre no risco de uma infiltração de lágrimas na face e um embargo na voz. Já se sabe que ela é assim. Mas este concerto foi mais especial que o normal.