Quer morar em Marte? Não vai rolar tão cedo, diz brasileiro da Nasa

Se a humanidade já conseguiu de alguma forma desvendar alguns aspectos de Marte, o brasileiro Ivair Gontijo é um dos responsáveis. O cientista da Nasa, formado pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), foi um dos líderes do projeto que culminou com a ida do veículo Curiosity para o planeta vermelho no início da década. Aproveitamos uma rápida passagem dele pelo país para perguntar ao físico: quanto tempo falta para podermos morar em Marte?

E as notícias não são animadoras. Ele jogou um balde de água fria em quem já planejava juntar um dinheirinho para comprar uma passagem de Elon Musk: 

Ainda existem problemas técnicos gigantescos, como produzir oxigênio. É uma viagem que demora entre oito e nove meses. Não sei dizer quanto tempo falta, mas imagino umas duas ou três décadas. Depende muito do investimento

Arquivo Pessoal
Ivair Gontijo, ao lado da Curiosity: brasileiro ajudou a projetar robô Imagem: Arquivo Pessoal

Além de achar um jeito de produzir oxigênio para a longa viagem, o brasileiro cita como empecilhos técnicos a dificuldade de armazenar comida para os astronautas fazerem o longo percurso até chegar a Marte e o espaço pequeno destinado a humanos dentro dos foguetes já usados para ir ao planeta vermelho. 

Gontijo sequer arrisca uma data para pisarmos em solo marciano, até por não estar diretamente ligado ao projeto que visa levar humanos ao planeta. O que ele sabe, por trabalhar no grupo que vai lançar um novo robô para o planeta “vizinho”, é que estamos muito mais preparados para descobrir vida por lá.

Estamos muito mais preparados para procurar por vida. Temos equipamentos melhores, técnicas mais sofisticadas e entendemos mais de sequenciamento de DNA. O equipamento de hoje é completamente diferente do de vinte, trinta ou cinquenta anos atrás… 

A pesquisa vai coletar amostras e procurar por material orgânico em Marte, algo vital para descobrirmos se há ou houve vida ali em algum momento.

Confira a entrevista completa com o cientista que esteve no Brasil para a Campus Party 2019: 

UOL: O que você está fazendo atualmente na Nasa? Em qual projeto está trabalhando?

Ivair Gontijo: Estou trabalhando no projeto Mars 2020, a próxima missão que vai para Marte entre julho e agosto do ano que vem. É parecida com a Curiosity –um veículo parecido, mas com um conjunto diferente de instrumentos e um sistema coletor de amostras. A ideia é que a gente vai mandar a melhor tecnologia e os melhores instrumentos para procurar material orgânico em Marte. Quando a gente achar rochas com material orgânico dentro, vamos coletar amostras. Vamos colocar isso em tubos metálicos que vão ser deixados na superfície de Marte para em uma missão futura robotizada trazer para a Terra.

Nasa
Ivair Gontijo foi um dos líderes do projeto que culminou na ida do robô Curiosity para Marte Imagem: Nasa

UOL: Por que trazer para a Terra e não ser analisado por lá? E qual sua função no projeto?

Ivair: A ideia de trazer para cá é que temos por aqui sequenciamento de DNA, técnicas de biologia e física que enchem um edifício inteiro. Não dá para fazer uma versão miniatura disso e mandar para Marte. Tem que trazer as amostras para estudar aqui. Sou o engenheiro responsável pelas interfaces entre os instrumentos e o veículo. Tem laser para vaporizar rocha em Marte, fazer medidas de elementos químicos. Com esse instrumento podemos fazer medidas remotas, é muito fácil você fazer medidas para todo lado para saber quais materiais interessantes trazer para cá. Toda vida na Terra que a gente conhece é feita de carbono. Então onde tem material orgânico pode ser que possa mostrar para gente que tem evidência se Marte já teve ou tem vida. Se a gente continuar insistindo, uma hora vamos responder essa pergunta.

UOL: A grande meta atual é a ida do homem para Marte. Na sua opinião, estamos perto disso ocorrer? Falta quanto?

Ivair: Ainda existem problemas técnicos gigantescos. Só produzir oxigênio, a viagem demora entre oito e nove meses. Os problemas continuam gigantescos, mas problema técnico se a gente continuar insistindo resolvemos. Não sei dizer quanto tempo falta, mas imagino umas duas ou três décadas. Depende muito do investimento.

UOL: O que falta para irmos para Marte? Quais são os empecilhos?

Ivair: A produção de oxigênio durante a viagem, comida durante a viagem. Depois que chegar a Marte também. O espaço é muito pequeno, o Curiosity foi para Marte em um foguete que só cabia uma coisa de quatro metros e meio. Coube um veículo de 900 kg dentro, mas o espaço é pequeno para o ser humano. Essas coisas a gente não tem a tecnologia no momento. São problemas técnicos para serem resolvidos.

Arquivo Pessoal
Ivair Gontijo, cientista brasileiro que trabalha na Nasa Imagem: Arquivo Pessoal

UOL: Por que é tão importante irmos a Marte? O que a humanidade pode ganhar com isso?

Ivair: O que a gente sabe é que o ser humano é um bicho curioso. É o conhecimento científico, interessa saber porque o Marte se modificou tanto. Em um passado distante era muito parecido com a Terra e hoje é super frio e árido, o que aconteceu? A gente não sabe. A gente não sabe o resultado que uma tecnologia vai produzir. Há pouco mais de 100 anos tinha um brasileiro que era rico, morava em Paris e gastou dinheiro fazendo uma máquina pesada que se mantinha no ar. Para que serve isso? Não acho que Santos Dumont poderia ter investido melhor, é o maior investimento da humanidade. As coisas evoluem dessa forma. As aplicações vêm depois, desenvolvemos primeiro ideias e conceitos científicos.

UOL: Qual vai ser nosso primeiro passo a partir do momento que pisarmos em Marte? O que poderemos fazer que os robôs ainda não fizeram?

Ivair: Com seres humanos pode fazer mais coisas, pode ter mais informações sobre o planeta. Informações quase subjetivas que o robô não teria como captar para gente. E também isso pode começar a desenvolver todo um processo de colonização. Se os seres humanos forem para lá, é possível plantar e fazer mais coisas que não dá com robô.

UOL: Quais as próximas fronteiras que buscamos no espaço? O que vem de novo por aí que nos permitirá mais conhecimento?

Ivair: Muita coisa. Tem exploração robótica do Sistema Solar, tem Marte, tem a lua de Júpiter. Europa é uma lua coberta de gelo cheio de fratura. Se tem fratura, é porque tem movimento. A gente tem indícios de que esse gelo tem 30 km de espessura e abaixo tem um oceano global, existe mais água em Europa do que na Terra. Então o lugar é interessante para procurar vida. Têm várias missões acontecendo, vários outros corpos no Sistema Solar sendo estudados. E tem a astronomia em geral, estudo das estrelas, estudo das galáxias. Têm muitas perguntas a serem respondidas, existem por exemplo pulsos de raio gama no Espaço e não se sabe de onde vem. Tudo isso é estudado, a estrutura do universo inteiro, como as estrelas evoluem.

UOL: Você acredita que estamos mais preparados para encontrar alguma forma de vida fora da Terra?

Ivair: Com certeza. Estamos muito mais bem preparados para procurar por vida, temos equipamentos melhores, técnicas mais sofisticadas. Entendemos mais de sequenciamento de DNA, melhorou demais. Equipamento hoje em dia é completamente diferente do que há vinte, trinta ou cinquenta anos atrás.

UOL: E nós precisamos focar em ser uma forma de vida que estamos acostumados na Terra ou precisamos ampliar os horizontes?

Ivair: A gente faz medidas das estrelas ou dos planetas, por exemplo de Marte, e encontramos os mesmos elementos químicos da Terra. É magnésio, silício, carbono, são elementos da tabela periódica. A gente vê também essas assinaturas de elementos nas estrelas em galáxias inteiras. O carbono é quase mágico. Nós temos uma química inteira só do carbono, a orgânica. E a química inorgânica que trata dos outros. O carbono junta com oxigênio, hidrogênio e forma moléculas enormes que são o DNA e dá para decodificar vida. Se esses elementos são abundantes, é muito mais fácil pensar que são por elementos parecidos. Não precisa ser humanoide com dois braços e pernas, mas que a vida seja baseada em molécula de DNA é interessante. Pode ser que não seja DNA também. É uma boa apostar no carbono. Que outros podem formar? O silício também forma moléculas grandes, mas o carbono tem suas vantagens. Agora se existe outra forma de vida completamente diferente, vai ser baseado no quê? Não é matéria se não for químico, não teria nem como se comunicar. Não é científico. Eu acho que apostar em vida formada de carbono é a melhor aposta.