Gripe. “Podem usar-se antibióticos no contexto da gripe, mas não para a tratar”

Nos últimos dias, Rita Pereira tem sido alvo de críticas por parte dos seus seguidores. Em causa está uma publicação da apresentadora nas redes sociais a explicar o porquê de não ter marcado presença no último programa de domingo à noite da TVI, o “Dança com as Estrelas”. Na publicação, a atriz afirma que não conseguia apresentar o programa porque estava com gripe. Até aqui tudo parecia estar bem. O motivo da indignação prende-se com o que dizia a seguir, que entretanto já foi editado, em que afirmava que tinha sido atacada por uma “bactéria viral”, que a “atirou para a cama” com um surto de gripe: “Uns antibióticos e fico como nova”.

A afirmação sobre as bactérias e os antibióticos desatou um rol de críticas. Será que se podem curar gripes com antibióticos? E as gripes podem ser causadas por bactérias? Ao i, Jaime Pina, médico e vice-presidente da Fundação Portuguesa do Pulmão, explicou que “a gripe não é provocada por uma bactéria, a gripe é provocada por um vírus”.

Sobre a parte dos antibióticos – que só podem ser tomados com receita médica -, o médico esclareceu que estes não servem para tratar a gripe, embora, eventualmente, possam ser usados em pessoas com gripe. E deixou claro que estes medicamentos só são receitados em casos em que os doentes tenham desenvolvido algum tipo de infeção respiratória durante a gripe, existindo a necessidade de a tratar com antibióticos. 

“Existem antibióticos para matar as bactérias, relativamente ao vírus da gripe existem antivíricos que servem para matar o vírus da gripe”, elucidou. “Isto não quer dizer que, às vezes, não se possam usar antibióticos na gripe, mas não é no tratamento da gripe, é noutra coisa”, voltou a frisar.

Jaime Pina explicou ainda que a gripe é uma doença que pode gerar uma série de complicações, entre as quais pneumonia. “A pneumonia pode ser causada pelo próprio vírus da gripe ou então pode ser provocada por uma bactéria”, disse. É neste segundo caso que se recorrem aos antibióticos. Daí a afirmação deste especialista: “Podem usar-se antibióticos no contexto da gripe, mas não para tratar a gripe”.

Pessoas estão mais informadas? “Uma gripe viral? Antibióticos? Um vírus não se ‘combate’ com antibióticos. Os antibióticos somente servem para tratar infeções bacterianas. Sei que pode parecer cromo e chato… mas és seguida por imensa gente que pode ser induzida em erro e se automedicar erradamente. A errada utilização de antibióticos é uma das principais causas das infeções multirresistentes”, comentou um seguidor da atriz. “Falta corrigir a frase em que refere que trata a gripe com antibióticos. E ao referir gripe não precisa acrescentar viral, pois sendo uma gripe, já se sabe que é viral. As melhoras…”, acrescentou outro.

As críticas choveram de todo o lado, tendo obrigado Rita Pereira a partilhar os medicamentos que estava a tomar. “Aos ‘médicos’ todos que estão a comentar o meu post”, referiu ironicamente a apresentadora, “antibióticos SIMMM!!! Gripe viral: foi o que o médico disse. Fiz um raio-X aos pulmões porque não consigo respirar. O que eu tenho especificamente? Não sei. Estava mais para lá do que para cá quando estive no hospital toda a manhã e só queria vir-me embora e enfiar-me na cama, tal era o frio e a febre”, acrescentou. 

Será que face a este episódio se pode deduzir que os portugueses estão bem informados sobre o uso dos antibióticos? Jaime Pina refere que as mensagens sobre o uso correto de antibióticos têm sido divulgadas por várias entidades, entre elas a Direção-Geral de Saúde (DGS) e a Fundação Portuguesa do Pulmão, o que tem ajudado a melhorar a literacia dos portugueses na área da saúde.

“Não se usam antibióticos nas doenças virais. Não se tratam gripes com antibióticos e, portanto, todas estas mensagens que a DGS e a fundação têm passado”, explicou.  “É óbvio que hoje a literacia sobre saúde dos portugueses está muito melhor do que estava há uns anos. Agora, se perguntar se está bem? Não está”, admitiu o médico, para quem os níveis de literacia em Portugal “não são muito altos”.

Para combater este problema, o médico considerou que os órgãos de comunicação social têm um papel importante a desempenhar, porque se forem divulgadas mais notícias sobre estes assuntos, as pessoas ficam mais informadas. Contudo, admitiu que todos os dias os médicos e cientistas aprendem coisas novas e, portanto, “a literacia em saúde é um projeto que nunca está acabado”.

Números Na Europa, 20% dos antibióticos tomados desnecessariamente foram usados para tratar gripes ou constipações, segundo um estudo da Comissão Europeia publicado em novembro do ano passado. Em Portugal os números preocupam. O documento revela que a gripe é a razão mais comum para a utilização de antibióticos. Ou seja, 12% dos portugueses tomou estes medicamentos para combater a gripe. É a percentagem mais alta do país, estando à frente de problemas como a bronquite (8%) e infeções urinárias (10%).

Quando questionados sobre se os antibióticos matam vírus, menos de metade dos inquiridos (43%) ao nível europeu respondeu corretamente. Em Portugal, 64% respondeu errado, assumindo que os antibióticos matam o vírus da gripe – colocando o país no sétimo lugar a contar dos últimos na União Europeia (UE).

Relativamente à constipação, o estudo revela que 66% dos europeus sabem que os antibióticos são ineficazes no tratamento das constipações. No entanto, Portugal é dos países menos informados sobre a matéria, ocupando o último lugar da tabela: mais de metade dos portugueses (55%) não sabe que os antibióticos não devem ser usados em caso de constipação.

Em suma, no geral, o relatório coloca Portugal perto da linha vermelha relativamente aos conhecimentos sobre o uso de antibióticos, onde atrás do nosso país na UE só estão outros três: Bulgária, Letónia e Roménia.