Porto Editora nega censura a poema de Fernando Pessoa

O manual escolar da disciplina de Português para o 12.º ano, intitulado “Encontros” e produzido pela Porto Editora, retirou três versos de um poema de Álvaro de Campos, revela o semanário Expresso.

Anda à procura do elixir da concentração? Coma estes 10 alimentos
Anda à procura do elixir da concentração? Coma estes 10 alimentos
Ver artigo

Os versos – “Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas”, e umas estrofes a seguir, “E cujas filhas aos oito anos – e eu acho isto belo e amo-o! – / Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada” – simplesmente desapareceram da versão original da obra escrita por Fernando Pessoa sob o heterónimo Álvaro de Campos.

Desapareceram, sem qualquer indicação ou alerta deixado ao leitor. Em nenhuma das páginas onde o poema está impresso existe a indicação de que os versos foram cortados. Também na ficha técnica do manual, a editora não dá conta dessa alteração.

Porto Editora nega censura

Em comunicado, a Porto Editora diz esta segunda-feira que “não há qualquer censura à obra de Fernando Pessoa”. “O poema “Ode triunfal”, de Álvaro de Campos, está disponível na íntegra no livro escolar Encontros – 12.º ano, na versão do professor”, explica.

Alecrim pode ajudar estudantes a ter boas notas
Alecrim pode ajudar estudantes a ter boas notas
Ver artigo

“Nesta versão, as autoras sinalizam ao professor quais os versos que se encontram omitidos na edição do aluno. Assim, os docentes podem decidir se abordam em contexto de sala de aula – e de que forma – versos que têm linguagem explícita e se relacionam com a prática da pedofilia”, adianta a nota.

“Na edição disponível para os alunos, o poema “Ode Triunfal” encontra-se transcrito na íntegra, com exceção dos três versos referidos (versos 153, 169 e 170). No entanto, a indicação de que os versos foram cortados é visível tanto graficamente (linhas a tracejado) como através da numeração das linhas”, acrescenta.

Não há qualquer censura à obra de Fernando Pessoa, apenas e tão somente uma preocupação didático-pedagógica

“A diferença entre livro do professor e livro do aluno assenta no pressuposto de que cada docente tem um papel central na preparação e na organização das suas aulas, em função das características específicas de cada turma. Os professores conhecem as suas turmas e conhecem o poema integralmente, pelo que saberão também se têm ou não condições para abordarem os referidos versos com o tempo e o cuidado necessários, uma vez que podem, obviamente, constituir fator de desestabilização ou de desvio da atenção dos alunos”, refere ainda.

“Por conseguinte, não há qualquer censura à obra de Fernando Pessoa, apenas e tão somente uma preocupação didático-pedagógica – seguida pela generalidade dos manuais existentes – que permite aos professores decidirem livremente sobre a abordagem mais adequada junto dos seus alunos”, conclui a nota.

O manual escolar faz parte das livros aprovados pelo Ministério da Educação e foi escolhido por cerca de 90 escolas em todo o país.

Numa dessas instituições de ensino, os alunos, enquanto ouviam a gravação de uma declamação do poema, aperceberam-se que os ditos versos não estavam na página 99 e 100 do manual.

Não é a primeira vez que a Porto Editora se envolve em polémicas por causa dos manuais escolares. No ano passado foi notícia, por exemplo, por excluir do manuais do primeiro ano as famílias homoparentais. Antes, foi duramente criticada por publicar livros com cores e atividades diferentes para rapazes e raparigas com graus de dificuldade díspares.

última atualização às 14h00