O impasse do nacional-populismo

Manifestantes protestam contra a visita de Donald Trump e exibem cartaz com a inscrição ‘Nenhuma crise aqui! Deixe-nos em paz!’ enquanto aguardam a chegada do avião do presidente no Aeroporto Internacional McAllen, no Texas, na quinta-feira (10/1) — Foto: AP Photo/Eric GayManifestantes protestam contra a visita de Donald Trump e exibem cartaz com a inscrição ‘Nenhuma crise aqui! Deixe-nos em paz!’ enquanto aguardam a chegada do avião do presidente no Aeroporto Internacional McAllen, no Texas, na quinta-feira (10/1) — Foto: AP Photo/Eric Gay

Manifestantes protestam contra a visita de Donald Trump e exibem cartaz com a inscrição ‘Nenhuma crise aqui! Deixe-nos em paz!’ enquanto aguardam a chegada do avião do presidente no Aeroporto Internacional McAllen, no Texas, na quinta-feira (10/1) — Foto: AP Photo/Eric Gay

Dois anos depois que o plebiscito do Brexit e a eleição de Donald Trump pegaram o mundo de surpresa, Reino Unido e Estados Unidos encaram o momento decisivo de ambos os projetos nacional-populistas.

No Reino Unido, a premiê Theresa May levará enfim amanhã o acordo firmado para a saída da União Europeia (UE) ao “voto significativo” no Parlamento. A proposta é criticada por trabalhistas, norte-irlandeses da coalizão governista e pelos adeptos de um Brexit sem tantas concessões à UE. A derrota de May é dada como certa.

Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump enfrenta resistência do Congresso, que se recusa a destinar os US$ 5,7 bilhões que ele exige para erguer um muro na fronteira com o México. O impasse resultou na maior paralisia de serviços federais na história americana, que já dura 24 dias. Em resposta, Trump pretende decretar uma emergência nacional para desviar recursos militares para o muro.

Em ambos os países, a tentativa de proclamar a soberania nacional diante de desafios externos esbarra na realidade complexa e multifacetada da política. Nem May nem Trump dispõem do consenso parlamentar necessário a levar seus projetos a cabo. As duas situações revelam os limites e as consequências do nacional-populismo na prática.

Embora derivem do mesmo sentimento de rejeição à imigração e às imposições da globalização – as restrições à soberania nacional que ideólogos da nova direita alcunharam “globalismo” –, sobretudo entre setores da classe média branca sem instrução universitária que perdeu empregos e relevância política, os casos britânico e americano têm desdobramentos distintos.

No Reino Unido, a derrota do projeto de May poderá levar a dois desfechos antagônicos. Haverá uma nova tentativa de suavizar o acordo com a UE, de modo a conquistar o voto de parlamentares (em especial uma ala representativa dos trabalhistas) que prefeririam um Brexit ainda mais suave, nos temos da relação entre a UE e a Noruega.

A UE já afirmou que não faria nenhuma alteração no acordo, em especial no dispositivo criado para garantir a fronteira aberta entre Irlanda (parte da UE) e Irlanda do Norte (parte do Reino Unido). Mas dificilmente deixaria de aceitar uma solução nos moldes noruegueses, já que ela amplia seus próprios poderes.

A Noruega integra a Área Econômica Europeia (EEA), respeita todas as normas da UE, permite livre circulação de mercadorias, capitais e pessoas, sem ter nenhuma influência nas decisões burocráticas que determinam todas as regras comerciais. Para os defensores do Brexit que almejavam “resgatar o controle” sobre o próprio país, tal situação representaria uma derrota humilhante. Seria uma ruptura de fachada, em que o Reino Unido estaria ainda mais subordinado às decisões dos burocratas de Bruxelas.

A alternativa à saída norueguesa seria um Brexit sem acordo. Nessa situação, o país estaria diante de uma incerteza sem paralelo. O governo lançou desde agosto passado mais de cem alertas para situações caóticas em setores como transporte, navegação, telecomunicações, saúde, finanças, para não falar nas óbvias filas que seriam criadas nas alfândegas e postos fronteiriços (em Dover, caminhões teriam de esperar até seis dias para entrar no país, num cenário otimista traçado por um estudo).

Num lance de desespero, parlamentares do governo e da oposição articulam a convocação de um novo plebiscito para decidir entre o Brexit proposto pelo acordo de May e a permanência na UE. Diante das idas e vindas dos últimos meses, o mais provável seria o Brexit ser derrotado (embora seja impossível prever). Seria outra saída humilhante para os vitoriosos dois anos e meio atrás.

Não parece haver saída intermediária: ou bem os partidários do Brexit teriam de enfrentar uma nova votação em posição de desvantagem, ou engolir um acordo “norueguês” com ainda mais concessões à UE – ou então o país estaria diante do caos do Brexit sem acordo.

Nos Estados Unidos, está em jogo bem menos. A crise na fronteira mexicana tem mais interesse político que impacto real. Trump exagera a ameaça dos imigrantes para cumprir sua promessa de campanha e manter a base mobilizada, já de olho na campanha pela reeleição. O muro se tornou um fetiche na sua disputa de poder com o Congresso. Ele quer mostrar que manda mais.

Qualquer que seja sua decisão, contudo, a realidade americana pouco será afetada pelo que será ou deixará de ser erguido na fronteira (na última versão, uma cerca de aço com estacas pontiagudas). Depois da derrota republicana nas eleições de meio de mandato para a Câmara, Trump enfrenta outro tipo de desafio.

A hostilidade do Congresso, a paralisia federal e a conclusão das investigações sobre a interferência russa nas eleições de 2016 põem seu governo diante de uma situação em que a própria sobrevivência e a reeleição em 2020 estão em xeque. O mais provável, se não houver surpresas, é que o país continue a funcionar sem expectativa de ruptura.

Reino Unido e Estados Unidos trazem uma lição importante ao Brasil de Jair Bolsonaro. Campanhas nacionalistas de resgate da soberania podem ser eficazes para conquistar o poder. Na prática, contudo, o combate ao fantasma do “globalismo” acaba por ter consequências indesejadas.

Nenhum governante, nem mesmo nos Estados Unidos, tem o poder absoluto de fazer o próprio Parlamento acatar seus desígnios ou o mundo se curvar a suas vontades. Do ponto de vista prático, a distinção entre globalização e “globalismo” não passa de um artifício retórico destinado a galvanizar plateias contra inimigos imaginários.

A globalização não é obra espontânea de grupos comerciais ou países, mas resulta da negociação minuciosa de interesses econômicos cuja essência é política, travada no âmbito de acordos bilaterais ou das instituições internacionais “globalistas”, como UE ou OMC, aquelas mesmas que os nacional-populistas insistem em desafiar. O resultado fica evidente no caso do Brexit. Em vez de soberania revigorada, o que os britânicos já colhem é isolamento e enfraquecimento nacional.

— Foto: Arte/G1— Foto: Arte/G1

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