Locadoras pegam carona no crescimento dos aplicativos de transporte

Segundo a Localiza, os motoristas dos aplicativos fogem de riscos, a exemplo do custo de ficar sem trabalhar quando ocorre algum problema com o automóvel. Foto: Fábio Costa/Divulgação
Segundo a Localiza, os motoristas dos aplicativos fogem de riscos, a exemplo do custo de ficar sem trabalhar quando ocorre algum problema com o automóvel. Foto: Fábio Costa/Divulgação

As locadoras de veículos estão aproveitando o crescimento dos aplicativos de transporte para consolidar un nicho novo de negócio: o aluguel para motoristas que oferecem esse tipo de serviço. As maiores redes do país estruturaram áreas específicas para se dedicar a esse mercado e tirar vantagem da expansão de apps como Uber, 99 e Cabify.

Uma das principais vantagens desse mercado é a garantia de um aluguel por um período maior, o que reduz a possível ociosidade do veículo. Além disso, é uma forma de encurtar o caminho até potenciais novos clientes. No site do Uber, por exemplo, há cinco opções de locadoras com quem há parceria para garantir condições especiais —segundo a empresa, os descontos para quem locar um carro chegam a 50%.

Esse crescimento e o potencial que ainda pode ser explorado chegaram ao mercado financeiro. Para os analistas dos bancos e corretoras, as locadoras ainda têm muito o que fazer no segmento dos aplicativos de transporte. Estima-se que haja no Brasil por volta de 500 mil motoristas de aplicativos. Em torno de 100 mil usam veículos alugados e apenas a metade procura as grandes locadoras.

“Existe um potencial enorme dentro do universo de motoristas e também com a expansão do mercado. Hoje, algo em torno de 20% da frota do segmento de aluguel de carros é direcionada para motoristas de aplicativo”, aponta relatório da consultoria XP.

Ações em alta 

Levantamento feito pela Economatica mostra que as empresas do setor de locação de veículos listadas na B3 vêm apresentando consistentemente desempenho no mercado de capitais melhor do que as montadoras com capital aberto na Bolsa de Nova York, o que reforça a análise de muitos especialistas de que a indústria automotiva passa por um teste difícil em um momento em que a palavra mobilidade ganha cada vez mais relevância. Ou investe em novas tecnologias, maior conectividade e alternativas mais limpas e baratas de combustível, ou será atropelada por novos competidores que consigam entendem melhor quais são as demandas dos consumidores.

Para as locadoras, a missão de acompanhar essas mudanças mercadológicas parece ser mais fácil, já que seu investimento em novas tecnologias para atender a esse novo perfil de cliente é menor e há mais agilidade no processo de tomada de decisão.

A Localiza Hertz, líder no setor, informou que os aplicativos representam oportunidade de atender a um novo perfil de usuário, o do motorista que tem interesse em trabalhar com aplicativo, mas não pensa ou não quer investir na compra de um carro. Por isso, vê no aluguel uma forma de entrar nesse mercado. A companhia mineira começou com cautela nesse nicho, até conseguir entender quais eram as demandas dos clientes. Percebeu, por exemplo, que ao alugar o veículo o motorista de aplicativo foge de uma série de possíveis perdas, como o custo de ficar sem trabalhar se ocorrer um problema com o automóvel.

Vantagens 

Quem passa pelo site da Localiza chega até a página voltada aos motoristas do Uber, onde são oferecidas opções de locação semanal e mensal. A empresa destaca as vantagens que oferece a esses profissionais, como não ter de arcar com Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), licenciamento e ver o veículo se depreciar com o passar do tempo. “O potencial de crescimento é enorme. Basta ver que o Brasil é um dos mercados mais relevantes para as empresas que oferecem aplicativos de transporte”, explica a empresa.

Além disso, os executivos da Localiza levaram em consideração o crescimento do uso de aplicativos, principalmente entre os mais jovens. “O carro deixou de ser símbolo de status para uma nova geração de motoristas e cada vez mais as pessoas refletem sobre ter ou não um veículo na garagem”, explica Lucas Brossi, sócio da Bain&Company. Com isso, acredita, as locadoras terão a oportunidade de aproveitar o avanço do conceito de compartilhamento de veículos.

Para locadoras como a Localiza, que estão de olho nos motoristas de aplicativo, essa expansão traz um desafio importante. É a necessidade de aumentar a frota para acompanhar esse crescimento da demanda e administrar a alta de todos os demais custos, como a manutenção dos veículos, os processos de multa e avaliação de risco de crédito.

Fusões e aquisições 

Apesar do entusiasmo, a Localiza informa que o desempenho do mercado de locação e particularmente da empresa não tem a ver com a demanda gerada pelos apps. Outros fatores impactaram no resultado, como a consolidação do setor. Em 2016, as pequenas locadoras tinham 52% de participação nesse negócio. Hoje esse naco está em 46%.

Ainda segundo a Localiza, também vem influenciando o crescimento da receita a queda no valor da diária. Em 2005, o valor médio da diária de locação representava cerca de 27% do salário mínimo. Em 2017, foi menos de 8%. Como consequência, o número de clientes avançou. No caso da empresa mineira, eram cerca de 3 milhões em 2012 e, no terceiro trimestre do ano passado, a carteira chegou a 8,2 milhões de usuários.

A Movida, do grupo JSL, é a terceira maior empresa do setor, atua em parceria com o Uber há pouco mais de três anos e também tem um acordo com a 99 e a Lady Driver. A decisão de se aproximar desses motoristas foi tomada depois que as locações de carros em aeroportos começaram a encolher. Muitos passageiros trocaram o aluguel e o táxi pelos apps.

Para se adequar ao novo mercado, a Movida criou um grupo especial de tarifas para manter a competitividade. “Hoje, a participação no negócio é bastante significativa, entre 8% e 10%, com previsão de aumento, já que estamos falando de uma tendência de mobilidade”, analisa Jamyl Jarrus, diretor executivo da companhia. A demanda gerada pelos aplicativos, segundo ele, deverá aumentar à medida que crescer a percepção dos motoristas de que a depreciação dos carros nesse tipo de atividade é grande — isso começa a ser percebido entre o primeiro e o segundo anos de uso do veículo.

No entanto, Fábio Costa, diretor de relações institucionais da empresa, pondera que o mercado de locação como um todo tem crescido consistentemente — a taxa média anual é de 12% nos últimos 10 anos. Nessa equação, entra também a procura cada vez maior por parte das empresas por terceirização de frota.

Além de se adaptar a esse novo mercado, alimentado pelos motoristas de apps, empresas como a Localiza e a Movida terão de se preparar para outras novidades. Uma delas será o aumento da oferta de veículos elétricos, que dependerá da infraestrutura de abastecimento deles e da queda no preço. Em uma segunda etapa, será a vez dos veículos autônomos.

De veículos a patinete elétrico

Ricardo Bacellar, da KPMG, lembra que mobilidade sempre foi o negócio das locadoras de veículos, por isso essas empresas não deverão ter dificuldades em encarar a mudança de hábito dos motoristas. Além da locação de carros, a Movida já oferece o serviço para quem quer alugar bicicleta e patinete elétrico.

Foi a forma de seguir o movimento da mobilidade citado por Bacellar. “Seja qual for o meio de transporte, um carro ou um drone, vamos nos colocar no meio do caminho como prestadores de serviço, e isso deverá chegar aos veículos autônomos”, afirma Jamyl Jarrus.

Segundo Fábio Costa, da Movida, a locadora desde já vem se posicionando como uma prestadora de serviços, em condições de uma estrutura de manutenção, seja qual for o veículo.