Cientista que ajudou a descobrir DNA perde honrarias após dizer que 'raça e inteligência estão conectadas'

NOVA YORK – Um dos maiores laboratórios de Nova York, nos EUA, cortou relações com um cientista americano que ajudou a descobrir o DNA — e por isso venceu o Prêmio Nobel —, James Watson, de 90 anos, após comentários racistas. Em um documentário recém-divulgado pela emissora americana PBS, ele afirmou que “raça e inteligência estão conectadas”.

O Laboratório Cold Spring Harbor (CSHL, na sigla em inglês) informou que revogou todos os títulos e honrarias de Watson, que liderou o laboratório por muitos anos.

O laboratório “rejeita inequivocamente as opiniões pessoais improcedentes e imprudentes que o Dr. James D. Watson expressou sobre o tema de etnia e genética”, disse, em comunicado, o atual presidente do CSHL, Bruce Stillman.

Watson, após ganhar o Prêmio Nobel Foto: Markus Schreiber / Divulgação/11-10-2004
Watson, após ganhar o Prêmio Nobel Foto: Markus Schreiber / Divulgação/11-10-2004

“As declarações do Dr. Watson são repreensíveis, não têm base na ciência e de modo algum representam os pontos de vista do CSHL, de seus curadores, professores, funcionários ou estudantes. O laboratório condena o mau uso da ciência para justificar o preconceito”, acrescenta o comunicado.

Controvérsia vem desde 2007

Esta não é a primeira vez que uma fala do geneticista James Watson causa espanto. Em 2007, o laboratório tirou dele o cargo de presidente após o cientista afirmar ao “Sunday Times” que era “inerentemente pessimista sobre a perspectiva da África” porque “todas as nossas políticas sociais são baseadas no fato de que a inteligência deles é a mesma que a nossa, enquanto todos os testes dizem que não é, na verdade”.

James Watson também disse que, embora desejasse que as raças fossem iguais, “as pessoas que têm que lidar com funcionários negros acham que isso não é verdade”.

O cientista se desculpou na época, mas, no recente documentário da PBS “American Masters: Decoding Watson”, ele disse que suas opiniões não mudaram. “Nem um pouco”, contou ele, em uma cena do filme, segundo o jornal “New York Times”.

“Eu gostaria que (minha opinião) tivesse mudado, que houvesse novos conhecimentos que mostrassem que a educação é muito mais importante do que a natureza (para determinar a capacidade intelectual). Mas eu ainda não vi isso. E há uma diferença na média entre negros e brancos nos testes de QI (quociente de inteligência). Eu diria que a diferença é genética”, afirmou ele.

O Laboratório Cold Spring Harbor Laboratory disse que, entre os títulos revogados, estão o de chanceler emérito, professor emérito e curador honorário.

De acordo com o CSHL, os últimos comentários do pesquisador “efetivamente reverteram o pedido de desculpas e a retratação feita pelo Dr. Watson em 2007”. A instituição acrescentou que aprecia o legado de descobertas científicas dele e sua liderança no laboratório, mas não pode mais ser associada a ele.

“As declarações que ele fez no documentário são completamente e totalmente incompatíveis com a nossa missão, valores e políticas, e exigem o corte de quaisquer vestígios remanescentes de seu envolvimento”, destacou Stillman.

Descobridor da dupla hélice

Ao lado de Francis Crick e Rosalind Franklin, James Watson foi um dos pesquisadores que descobriu a estrutura de dupla hélice do DNA, em 1953.

Segundo o “New York Times”, a família de Watson informou que ele não poderia se posicionar sobre o caso porque se encontra em atendimento médico desde um acidente de carro que sofreu em outubro. A entrevista da PBS foi filmada por volta de julho do ano passado.