“Vergonha”. Ana Gomes indigna-se com discurso de primeiro-ministro de Malta

Mal o primeiro-ministro de Malta, Joseph Muscat, sobe ao palco do congresso do Partido Socialista Europeu ouve-se um grito de indignação — “Shame!” (vergonha) —, vindo de eurodeputada Ana Gomes, que liderou a missão do Parlamento Europeu a Malta na sequência do assassinato da jornalista Daphne Caruana, que investigava a corrupção naquele país.

“Liderei a missão do Parlamento Europeu a Malta, tenho seguido o assunto, estive lá, sei tudo. Muscat tem no seu Governo ministros expostos nos Panama Papers, que são criminosos. Está a bloquear a justiça. Como é que é possível pô-lo a discursar? Não dá credibilidade nenhuma ao Partido Socialista Europeu. Só me posso indignar”, diz em declarações ao PÚBLICO.

A eurodeputada acabou por abandonar o congresso, por razões familiares, mas também por não conseguir estar mais num local onde Muscat tem palco. “Não consegui ficar depois de ver aquilo.”

Para a eurodeputada, os socialistas perdem credibilidade ao dar voz a este político, um dos quatro primeiros-ministros que estiveram presentes no congresso e que falou – além de António Costa e do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez. O eslovaco Peter Pellegrini esteve presente mas não falou. “É um grande bónus que se dá ao PPE”, acredita Ana Gomes, que escreveu vários tweets sobre o assunto.


Durante o discurso de Muscat, houve quase um silêncio absoluto na sala. Depois, no final, aplausos, pouco entusiastas quando comparado com a forma como o congresso exultou com o discurso de Pedro Sánchez. Mas Muscat teve palco para defender que é preciso que os progressistas “saiam da zona de conforto” e respondam aos problemas das pessoas em vez de estarem “auto-centrados”. “Estamos a falar para o espelho enquanto as pessoas estão a pedir respostas. Outros estão a dar essas respostas”, disse.

No coração do seu discurso está a revolução tecnológica. O primeiro-ministro de Malta defendeu que os socialistas europeus têm de ser “pela mudança e não contra ela”. “Temos de prosseguir as respostas aos assuntos que preocupam a próxima geração” e fez uma analogia: “Temos de ser o Spotify e não o walkman da política”.

Frases que para Ana Gomes mais não passam do que proclamações que Muscat não cumpre. “Está a entregar o país à criminalidade organizada”. “Como é que é possível? Como é possível ser aceite na família política e ser-lhe permitido falar antes dos principais líderes?”, questiona.

Ana Gomes diz que perguntou aos organizadores e que várias pessoas lhe deram apoio nesta sua posição. “Os organizadores do PSE tinham mais obrigação de saber… e há quem dê cobertura a estes tipos.”