Sarri teve a equipa à sua imagem, Guardiola viu jogar: Chelsea vence Manchester City e Liverpool é líder

Há quem diga que as melhores equipas de futebol são aquelas que assumem as ideias do treinador e jogam à imagem e semelhança do homem que está sentado no banco técnico. Foi assim com o Barcelona de Guardiola, o Chelsea e o Inter de Mourinho, o Manchester United de Alex Ferguson, durante tantos anos, e o Arsenal de Arsène Wenger, durante quase tantos outros. O Chelsea de Maurizio Sarri e o Manchester City de Pep Guardiola são, sem tirar nem pôr, espelhos da interpretação do espanhol e do italiano, que fizeram das anteriores equipas o paciente zero de filosofias e estratégias que estão agora consolidadas e com provas dadas.

Este sábado, Sarri pós-Nápoles e Guardiola pós-Barcelona e Bayern encontravam-se para a 16.ª jornada da Premier League em Stamford Bridge e tinha, logo à partida, algo em comum: tanto um como outro estavam desprovidos da principal referência ofensiva. Morata e Aguero estão lesionados e não estavam disponíveis para este jogo; do lado do Chelsea, o francês Giroud, que seria o substituto aparentemente óbvio do avançado espanhol, ficou no banco e foi Hazard quem assumiu a posição mais atacante da equipa, no meio de Willian e Pedro; no City, o brasileiro Gabriel Jesus — que foi titular no último jogo, com o Watford — saía do onze titular e dava lugar a Sterling, que jogou no meio com Mahrez de um lado e Sané do outro. Bernardo Silva foi titular do lado direito do meio-campo dos citizens, na habitual linha de três com Fernandinho e Silva. Nos blues, saíam ainda do onze Christensen, Loftus-Cheek e Fabrègas, depois da derrota a meio da semana com o Wolverhampton de Nuno Espírito Santo, que pôs fim a uma série de seis jogos consecutivos sem ganhar da equipa mais portuguesa do campeonato inglês.

Na classificação, o Manchester City estava obrigado a ganhar para continuar a ser líder isolado da Premier League: o Liverpool goleou o Bournemouth por 0-4 e assumiu o primeiro lugar, ainda que com menos um jogo, e caso o Chelsea vencesse a equipa de Guardiola, os reds ficavam na liderança com mais um ponto. O Chelsea, que estava no 5.º lugar com menos 11 pontos do que o City, precisava de vencer para pressionar o Tottenham (que joga ainda este sábado) e não permitir a aproximação do Manchester United, que ganhou ao Fulham (4-1).

Numa primeira parte com pouca baliza, o Manchester City entrou mais forte, dominador, tentou colocar o Chelsea a contar carneirinhos com sucessivos passes e trocas de flancos até chegar aos últimos 30 metros do terreno e controlou por completo o primeiro tempo. Ainda assim — e a anular por completo o adversário, que fez apenas um remate durante 45 minutos –, os citizens tiveram dificuldades em colocar bolas na zona de finalização e em transformar o gigantesco fluxo ofensivo em reais ocasiões de golo. A sociedade Silva & Silva, David e Bernardo, espanhol e português, estiveram bem defensivamente mas apareceram pouco na área mais avançada do relvado, ao passo que Mahrez e Sané não conseguiam encontrar Sterling no meio de Rudiger e David Luiz.

Aos 45 minutos, numa altura em que se pensava que o melhor que o Chelsea poderia retirar do primeiro tempo era o facto de não estar a perder, Pedro entendeu-se pela primeira vez com Willian, Hazard virou-se de frente para o jogo e N’Golo Kanté apareceu à entrada da área a fuzilar a baliza de Ederson a partir de uma zona que não era de ninguém. Ederson sofria um golo antes de tocar na bola pela primeira vez; o Chelsea marcava no primeiro remate que fazia e ia para o intervalo a ganhar depois de 45 minutos em que foi totalmente anulado pelo City. À hora do descanso, quando a posse de bola favorecia a equipa de Guardiola em mais de 60%, o cinismo de Sarri estava a ganhar.

No regresso para a segunda parte, o Chelsea voltou com mais confiança, motivado com o golo e a vantagem no resultado, e Pedro e Willian apareceram finalmente a fazer transições pelos corredores sempre lançadas por Jorginho, defendido muito bem nas costas por Kanté e a construir aquilo que Kovacic, hoje a passar mais ao lado do jogo, não conseguia. O City atirou-se obviamente para a frente, Guardiola tirou Sané para lançar Gabriel Jesus logo aos 50 minutos e Bernardo Silva tentou ligar-se mais com a frente de ataque, onde Sterling esteve sempre muito isolado e a jogar de costas para o jogo. Do outro lado, David Silva continuava com dificuldades e enfrentou uma boa exibição de Kanté, que ocupava os terrenos interiores e impedia o médio espanhol de criar desequilíbrios.

Se na primeira parte o Manchester City soube adormecer o Chelsea à entrada da área, em zonas onde podia de repente criar uma boa situação, na segunda os blues empurraram os citizens para a entrada do meio-campo, longe dos espaços de decisão, e fecharam de forma impecável as linhas de passe, obrigando o adversário a tentar o passe vertical que terminava quase sempre com a perda de bola. A equipa de Maurizio Sarri realizou uma grande segunda parte, aplicou a confiança que o golo de Kanté tinha deixado e desligou completamente o City do jogo, que nunca chegou a ter transições no corredor central. Pouco antes dos 80 minutos, no primeiro canto que conquistou, o Chelsea voltou a colocar em prática a eficácia e avolumou a vantagem: num movimento louvável, David Luiz apareceu ao primeiro poste a subir ao segundo andar e penteou a bola para o canto mais distante, deixando Ederson pregado ao chão.

O Chelsea impôs ao Manchester City a primeira derrota da temporada e manteve Stamford Bridge inviolável: os blues ainda não perderam em casa esta época. Com a derrota em Londres, a equipa de Pep Guardiola cai para o segundo lugar e o Liverpool de Jurgen Klopp está na liderança isolada da Premier League. O Manchester City é melhor equipa do que o Chelsea mas o Chelsea fez uma segunda parte muito melhor do que o Manchester City. Sarri teve uma equipa a jogar à sua imagem, pelo menos no segundo tempo; Guardiola ficou a ver jogar.