Salgueiros faz 107 anos mas a prenda chegou na semana passada

O Salgueiros completa hoje o seu 107º aniversário mas a prenda que o clube esperava há 14 anos, desde que o Estádio Vidal Pinheiro fora demolido, foi dada a semana passada quando a Câmara Municipal do Porto anunciou a cedência do Complexo Desportivo de Campanhã ao emblema de Paranhos que, por sua vez, se comprometeu a fazer obras de fundo no recinto. Já ontem foi tarde, pensaram os salgueiristas cansados de andarem durante 14 anos com a casa às costas. Começou por ser em Matosinhos, no Estádio do Mar (Leixões), depois houve uma mudança para Leça e, mais recentemente, o Salgueiros andou pelo Estádio Dr. Vieira de Carvalho, na Maia e pelo Municipal Costa Lima, no Castêlo de Maia.

Concedido o Complexo de Campanhã, o Salgueiros, apoiado na SAD que gere o futebol sénior desde julho, colocou de pronto as mãos à obra e quem entra no futuro Estádio do Cerco, conforme se irá chamar quando tudo estiver concluído, nota uma movimentação diferente. Há técnicos nas torres de iluminação, bancos de suplentes a serem montados e até Jorginho, lenda do clube a arranjar as redes da baliza. Mas ainda há muito mais para fazer. O recinto só tem uma bancada – descoberta e sem cadeiras – com capacidade para 200 a 300 pessoas, bem diferente das comodidades do extinto Vidal Pinheiro. O sintético “é duro”, diz Jorginho que ouve as queixas dos jogadores, e é preciso vedar o espaço atrás de uma baliza que está à mercê dos mirones que ao domingo ficam a ver a bola sem pagar.

Assim que O JOGO pede para falar com Rui Lima, médio de 40 anos que já andou pela I Liga, o sistema de rega é ligado. Mas a rega neste Complexo de Campanhã é tão rudimentar que até o próprio Rui Lima brinca com Miguel Pedro, também ele com passado na I Liga e que é o capitão do Salgueiros. “Vamos rezar que chova”, atira Rui Lima. “Só rega na grande área”, brinca Miguel Pedro. Contudo, o Salgueiros já conquistou uma grande vitória ao deixar o Castêlo da Maia para voltar à cidade do Porto. E este é “um ponto de partida”. “Os adeptos estão satisfeitos pelo espaço ser no Porto. Se calhar há muitos adeptos que se afastaram pois a equipa jogava sempre na Maia e no Castêlo da Maia”, explica Rui Lima.

Foi no Vidal Pinheiro que Miguel Pedro aprendeu a jogar futebol. No que agora é um terreno abandonado, com o que resta de uma bancada dos tempos da I Liga e ainda algumas amostras da então relva que agora já não pode ser chamada assim tamanho o estado de deterioração, Miguel Pedro chegou a ser apanha-bolas, adepto e esteve no último jogo da vida do Vidal Pinheiro. “Estava lá e vi pessoas a chorar. Olho para o que resta do Vidal Pinheiro e sinto nostalgia”, lembra. Para lá dos sentimentos nostálgicos, Miguel Pedro olha, agora, para o futuro, mesmo que esse futuro ainda demore a construir. “Temos que construir a nossa casa aos poucos. O que mais me custa é ver os adeptos à chuva e com grande dificuldade para virem aos jogos”, sublinha.

“Bonito”, para Jorginho, era que esta casa fosse em Paranhos, a freguesia que é o coração do Salgueiros. No entanto, a lenda salgueirista partilha da opinião de Rui Lima para olhar para a Campanhã como uma “oportunidade”. “Conforme estamos esta é uma boa oportunidade para começarmos a trabalhar aqui”.

Este trabalho no futuro Estádio do Cerco vai ser dividido em duas fases. Primeiro, a prioridade da direção e da SAD do Salgueiros é cobrir a bancada existente e as hipóteses que estão a ser estudadas passam por consegui-lo no mais curto espaço de tempo. Depois, acrescentar mais bancadas ao complexo e isso poderá passar por recorrer a bancadas amovíveis. Só depois de pensar nos adeptos é que os portuenses irão investir na substituição do sintético – e para não interferir com a época esta realidade só acontecerá em 2019/20 – e na remodelação dos balneários bem como na criação das infraestruturas inerentes necessárias como enfermaria, secretaria, entre outros.

Ainda a tempo da subida

O Salgueiros é o atual décimo classificado da Série 1 da Divisão de Elite da AF Porto bem longe, por isso, dos dois primeiros lugares que dão acesso à fase de subida ao Campeonato de Portugal. Apesar de estar num escalão amador, o plantel do Salgueiros é profissional e treina de manhã. A prioridade passava por subir já está época ao escalão de onde desceu em 2017/18 e, apesar de o início de temporada ter sido atribulado (e o Salgueiros já vai no terceiro treinador) Pedro Santos, presidente da SAD, acredita que ainda vai a tempo. “O objetivo é esse: subir”. Face aos doze pontos de distância para o vice-líder Padroense, o capitão Miguel Pedro alinha por um discurso mais realista. “Vamos pensar jogo a jogo. Se ganharmos os jogos todos, chegamos lá”, afirma o médio confesso adepto de um só clube. “Vim para aqui pois o Salgueiros é o meu clube. Não tenho outro”, garante.

Só que a ambição salgueirista não acaba aqui. “Foi a solução possível mas se um dia subirmos para os patamares profissionais, precisaremos de mais”, afiança Silvestre Pereira, presidente do clube. Por agora, esse lugar ainda é na Distrital do Porto. O futuro, acredita-se, é risonho. “Um dia voltaremos”, assegura o capitão Miguel Pedro. O triunfo com o Complexo da Campanhã poderá ter sido um pequeno grande passo para os próximos 107 anos do Salgueiros.