Paulo Trigo Pereira deixa bancada do PS e aponta o dedo a "paternalismo" do Governo

O professor universitário Paulo Trigo Pereira, abandonou esta sexta-feira a bancada do PS, passando a deputado não inscrito, queixando-se de uma atitude “paternalista” do Governo e de ter sido afastado nos mais importantes debates sobre finanças.

As críticas podem ler-se num comunicado enviado às redações por Paulo Trigo Pereira, deputado eleito como independente nas listas do PS nas legislativas de 2015. No documento, também salienta que deixou as suas funções de vice-presidente da Comissão de Orçamento e Finanças da Assembleia da República.

“Acontece que, particularmente nos últimos dois anos, a atitude do Governo perante o Grupo Parlamentar do PS tornou-se mais paternalista (vide todo o processo de descentralização) e os meus votos desalinhados, mas justificados em declarações, levaram a um afastamento mútuo entre mim e a direção” da bancada socialista, justifica o especialista em finanças públicas.

No texto, Paulo Trigo Pereira queixa-se da atuação da direção do Grupo Parlamentar do PS em relação a si em debates como o do Programa de Estabilidade ou o Orçamento do Estado para 2019 (OE2019).

“Quando a direção do Grupo Parlamentar do PS não dá a palavra em plenário ao seu vice-presidente da Comissão de Orçamento e Finanças nos debates mais importantes sobre finanças públicas (OE2019 e Programa de Estabilidade), como aconteceu este ano, e não esclarece porque é que certas propostas de alteração ao Orçamento são rejeitadas, está esclarecido o lugar que a direção da bancada atribui ao seu vice-presidente“, lê-se.

Paulo Trigo Pereira defende que, nos últimos três anos, assumiu “completamente a exclusividade” do seu mandato, considerando que pretendia dar o que sabia, quer no Grupo Parlamentar do PS, quer na Comissão de Orçamento e Finanças, quer, ainda, na comissão da transparência.

“Dediquei-me na medida das possibilidades a Setúbal, círculo por onde fui eleito, e não tive tempo para a Comissão de Assuntos Europeus (onde sou suplente). Cumpri e continuarei a cumprir, escrupulosamente, a disciplina de voto e o compromisso ético que subscrevi antes de ser eleito como deputado independente nas listas do PS”, destaca o docente universitário.

O agora deputado não inscrito advoga que nunca ambicionou um cargo político com a sua entrada na Assembleia da República, que classifica como “acidental”.

“Como é sabido, tudo começou pelo convite do PS para integrar o grupo de economistas coordenado por Mário Centeno [atual ministro das Finanças] para prepararmos o cenário macroeconómico, que entregámos em Abril de 2015 e que enquadrou a parte orçamental do programa eleitoral do PS. Mais tarde, [o secretário-geral do PS] António Costa convidou alguns dos elementos independentes desse grupo (Centeno, Caldeira Cabral e eu próprio) para integrarmos a lista de deputados”, conta.

No entanto, face a tudo o que se passou nos últimos dois anos, Paulo Trigo Pereira concluiu que não lhe restava outra opção que não demitir-se da vice-presidência da Comissão de Orçamento, sair da bancada socialista e tornar-se deputado não inscrito.

“Neste sentido, comuniquei a decisão ao secretário-geral do PS, António Costa, ao presidente do Grupo Parlamentar, Carlos César, e entreguei uma carta para o presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, no sentido de dar início ao processo de saída do Grupo Parlamentar do PS e à transição para deputado não inscrito”, acrescenta no mesmo comunicado.