ONU lamenta desistência do Brasil de sediar reunião sobre Acordo de Paris

A agência de mudanças climáticas da ONU recebeu com lamento e decepção o comunicado brasileiro sobre a desistência de sediar a COP-25 do Clima, segundo interlocutores que falaram à Folha ao longo da primeira semana de negociações da COP-24, encontro que discute meios de implementar o Acordo de Paris.

Se acontecesse no Brasil, a COP seria presidida pelo futuro ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, que declara não acreditar no fenômeno das mudanças climáticas. 

No entanto, um funcionário do alto escalão da agência da ONU em Bonn, na Alemanha, afirmou à reportagem que a desistência brasileira não causou alívio, mas preocupação. 


Para membros da diretoria da agência, a organização das COPs é uma oportunidade de alavancar a agenda climática nos países-sedes. Eles lamentaram o que chamam de “perda de oportunidade” de dialogar com o governo de Bolsonaro sobre o Acordo de Paris. 


Assessores do secretariado de mudanças climáticas e outros oficiais que dividem o escritório da agência confirmaram à reportagem as reações de surpresa e desapontamento, pois até então acompanhavam com confiança o trabalho da diplomacia brasileira para viabilizar candidatura nacional à sede da COP-25. 


Além da ginástica do governo brasileiro junto ao Congresso e ao Ministério do Meio Ambiente para garantir orçamento para a realização da COP, o Itamaraty negociou ao longo do ano com a Venezuela a aprovação de sua candidatura pelo Grulac, grupo dos países da América Latina e Caribe, destino da próxima Conferência do Clima da ONU.


O Grulac comunicou a candidatura brasileira à ONU no início de outubro. No fim de novembro, uma semana antes da COP-24, veio o comunicado de desistência do Brasil, motivada pela incerteza do compromisso do governo eleito com o Acordo de Paris.


Um dos diretores ouvidos citou o exemplo da Polônia, que preside até o fim da próxima semana a COP-24, na cidade de Katowice, conhecida como capital europeia do carvão. Segundo ele, o evento pode ajudar a abrir espaço político para discutir a transição energética no país. 


No entanto, a presidência polonesa tem sido criticada nos bastidores por priorizar uma declaração política, em vez de colocar esforços na negociação da regulamentação do Acordo de Paris. 


“Transição justa” é o nome da carta, assinada por cerca de 50 países, que o país-sede tenta promover como um dos produtos da conferência. O documento reconhece o desafio de regiões dependentes de atividades com altas emissões de carbono. Ele também pede um futuro decente aos trabalhadores dos setores de combustíveis fósseis que serão impactados pela transição para energias renováveis.  


A Polônia também sediou o evento em 2008 e 2013, quando o país-sede também recebeu críticas semelhantes às atuais, pelo patrocínio de empresas carvoeiras no evento, assim como pelo lobby em favor dos combustíveis fósseis e de posições que adiam os prazos para estabelecimento e revisão de metas de redução de emissões dos gases-estufa. 


Nos corredores da conferência, as delegações de diferentes blocos também reclamam que seus posicionamentos teriam sido diluídos nos rascunhos de regulamentação técnica do Acordo de Paris. 


Os ativistas ambientais têm participação tímida em Katowice. Manifestações espontâneas estão proibidas e a tradicional Marcha do Clima, que marca o início das COPs, ficou para este sábado (8), na metade do evento. 


Sob um governo de direita, a Polônia reforça a preocupação de observadores das negociações sobre possível perda de confiança no multilateralismo das negociações climáticas, com a eleição de novos líderes contrários ao Acordo de Paris —Trump, nos Estados Unidos, e Bolsonaro, no Brasil. 


Sob Trump, a delegação oficial americana passou a promover nas COPs eventos em defesa do gás, petróleo, carvão e energia nuclear. O evento americano na COP-23, como a Folha revelou na época, fortaleceu posicionamentos favoráveis aos combustíveis fósseis de outros países, como a Austrália. 


Neste ano, organizações que acompanham as negociações denunciam a forte presença de lobistas da energia nuclear e de tecnologias de “carvão mais limpo”, que contariam com o apoio da presidência polonesa para legitimar o uso desses recursos na transição energética para uma economia de baixo carbono. 


Agora, a Costa Rica aparece como candidata favorita a nova sede da COP-25, no ano que vem, cuja missão será elevar a ambição das metas determinadas por cada país, algo já previsto para acontecer em 2020.


O presidente da Costa Rica expressou, pelas redes sociais, apoio à candidatura e a comunidade internacional recebeu a oferta com ânimo, diante da reputação positiva do país na agenda ambiental. 


Costarriquenhos presentes no evento, no entanto, temem que o país não tenha estrutura para receber um evento tão grande —as últimas edições das COPs reuniram entre 20 e 30 mil pessoas. 


Em 2017, o mesmo motivo levou a ilha de Fiji a presidir a COP-23 fora do país —o evento foi hospedado em Bonn, na sede da agência de clima da ONU, para onde pode voltar no ano que vem se os países do Grulac não chegarem a um consenso até o final da COP-24, no próximo dia 14. 


Também figuram na competição as candidaturas de Chile, Guatemala e México.