Há 45 anos, Pelé interrompeu férias nos Cosmos para defender o Santos e também ajudar causa social

Pelé despediu-se do Santos em 2 de outubro de 1974, na Vila Belmiro, em Santos, em um confronto contra a Ponte Preta, diante de 20 mil espectadores. O camisa 10 jogou 22 minutos, depois ajoelhou-se no campo e disse adeus. A expectativa a partir dali era levar uma vida leve e tranquila ao lado da mulher Rosemery e dos filhos Edinho e Kelly. Mas não foi bem assim.

Todos sabem que o Rei do Futebol aceitou defender o New York Cosmos a partir de junho de 1975, em um contrato milionário que tinha como objetivo ajudar a estimular o futebol nos Estados Unidos. Todos sabem também que até hoje Pelé trabalha ativamente, viajando o mundo, como “garoto-propaganda” de seus parceiros comerciais e como embaixador do esporte.

Mas, após despedir-se oficialmente do Santos e aceitar jogar pelo Cosmos, poucos sabem que Pelé fez uma exibição pelo time brasileiro em 1975. Ela ocorreu há exatos 43 anos, em 7 de dezembro daquele ano, em Salvador.

Pelé aceitou atuar por mais 45 minutos, naquele que ficou marcado como seu 1.115ª jogo pelo Santos, contra o Bahia, no estádio da Fonte Nova, em Salvador, pelo Torneio Roberto Santos, popularmente chamado de “Torneio da Fome”.

A volta aos gramados do Rei do Futebol, no entanto, ficou aquém do nome dele. Apenas 14.536 pessoas foram ao estádio assistir o jogo, que terminou empatado por 1 a 1. Aliás, Pelé saiu com 0 a 0 no marcador. Alberto fez 1 a 0 para o Bahia na volta do segundo tempo. O empate santista ocorreu pouco depois com Brecha, justamente o substituto do camisa 10 mais famoso de todos os tempos.

“No primeiro tempo, único com a presença de Pelé, o jogo foi bastante ruim. Lento no meio de campo, as duas equipes praticamente não criaram chances de gol. A melhor jogada de Pelé surgiu aos 32 minutos: uma finta rápida sobre o beque central Sapatão, um passo de penetração e o chute forte, de perna direita, que obrigou Joel Mendes colocar a bola para escanteio com bastante dificuldade”, relatou o repórter Narciso James para a edição do dia seguinte ao encontro para o jornal “Folha de S.Paulo”.

“O time do Bahia está bem, é difícil penetrar na sua área. O público foi regular e apesar das chuvas frequentes que tem caído em Salvador, fiquei satisfeito em poder colaborar para que a arrecadação aumentasse um pouco”, disse Pelé naquele dia.

A renda foi de 119 mil cruzeiros. Algo equivalente hoje a R$ 287 mil, segundo o Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna. A arrecadação foi dividida da seguinte forma: Santos e Bahia repartiram 5% do valor, Atlético-MG e Remo, que fizeram a preliminar, dividiram 20% e o restante foi foi doado para instituições de caridade. Salvador sofria situação difícil por causa das chuvas.

A presença de Pelé na partida não atraiu tanta arrecadação como se esperava, mas de acordo com a imprensa da época o motivo foi a desorganização do torneio. O Rei do Futebol já tinha vínculo com o Cosmos e estava de férias no Brasil.

Para que ele pudesse entrar em campo, o time americano exigiu um seguro internacional. Este teve valor muito alto: 4 milhões de dólares. Demorou para ser fechado e somente na véspera do confronto é que pode-se noticiar a presença de Pelé no jogo.

O valor alto explica a ausência do Rei do Futebol em outros jogos do Santos no torneio. Ao menos o time paulista foi o campeão da competição ao bater o Vitória por 3 a 0, na Fonte Nova, em 18 de dezembro. Entre os campeões, estavam Clodoaldo e Cláudio Adão.

Durante a estadia de Pelé em Salvador, ele teve uma longa agenda social. Andou em um Rolls Royce a convite de um empresário local, o mesmo que viabilizou a ida dele para lá, visitou empreendimentos imobiliários (estava interessado em investir na cidade), inaugurou um shopping, assistiu ao filme “O Pistoleiro” no cinema Guarani e participou até de uma serenata na Lagoa de Abaetê, em Itapoã. Ficou hospedado no Salvador Praia Hotel. Essa é outra curiosidade: jogadores e diretores do Santos ficaram no Plaza Hotel.

A partida em questão é pouco lembrada e muitas listas de jogos do Rei nem sequer a incluem.

No entanto, é bom lembrar que o confronto citado neste texto não foi o último de Pelé pelo Santos. Quando ele decidiu se aposentar de vez, ele participou de um amistoso entre Cosmos e Santos, em 1º de outubro de 1977, em Nova York. Defendeu um time em cada tempo. Os santistas perderam por 2 a 1. E, ao final do duelo, o painel eletrônico do Giants Stadium proferiu a homenagem final: “Pelé, the man!”