Facebook quis acesso secreto a contatos telefônicos de usuários e cogitou cobrar por dados

Mark Zuckerberg, CEO do Facebook (Foto: Justin Sullivan/Getty Images)

Entre 2012 e 2015, o Facebook não só deu permissão especial para alguns aplicativos acessarem dados dos amigos de seus usuários, como também tentou vasculhar os registros telefônicos das pessoas e ignorou “o que pode ser bom para o mundo” em benefício da própria rede.

Esses são alguns dos fatos que se pode constatar olhando com atenção as 250 páginas de informações divulgadas nesta quarta-feira (5/12) pelo Comitê de Digital, Cultura e Mídia do Parlamento do Reino Unido. O compilado – clique aqui para acessar o documento completo, em inglês – reúne e-mails trocados pelos principais executivos da empresa entre os quatro anos citados, e foi obtido junto à Six4Three LLC, dona de um antigo aplicativo que foi banido pelo Facebook e abriu uma batalha judicial contra a rede social.

O Business Insider listou as setes principais descobertas a partir do documento, que devem contribuir para uma perda ainda maior da credibilidade de Mark Zuckerberg perante as comunidades regulatórias no mundo todo.

Veja quais são:

Permissão especial a aplicativos

A revelação mais explorada desde a divulgação dos e-mails é o status especial que o Facebook deu para Airbnb, Badoo, Netflix e Lyft (e possivelmente outros que não foram citados abertamente) após reformar sua plataforma para desenvolvedores de aplicativos associados à rede. Na prática, essas empresas mantiveram a possibilidade de acessar os dados de todos os amigos das pessoas que usam seus apps, quando o Facebook supostamente teria vetado essa possibilidade depois de críticas recebidas.

Segundo o Comitê parlamentar britânico, “não está claro que houve qualquer consentimento dos usuários para isso, nem como o Facebook decidiu quais empresas teriam o benefício.”

Rivais tiveram acesso dificultado

Por outro lado, a rede de Zuckerberg definiu uma lista de “competidores estratégicos” do seu negócio que seriam alvo de uma avaliação mais criteriosa sobre o nível de acesso que teriam aos dados de usuários – não por respeito à privacidade das pessoas, mas por questões de competição entre os negócios.

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O próprio Mark Zuckerberg revisou essa lista de competidores, cujos integrantes não foram divulgados. E, em cada caso específico, ele ou outros executivos seniores teriam que aprovar pessoalmente a liberação dos dados a essas empresas.

Curiosamente, pouco antes da revelação dos e-mails pelo comitê britânico, o Facebook anunciou que estaria “relaxando as restrições estabelecidas contra competidores”. Provavelmente, diz o Business Insider, porque já sabia do que seria publicado logo depois.

Aprovação pessoal de Zuckerberg contra app de vídeos do Twitter

Em 2012, o Twitter comprou o Vine, um app de vídeos curtos que viralizavam rapidamente sendo embutidos em posts nas redes sociais. Prontamente, o Facebook tomou ações para limitar o alcance da plataforma.

Em um e-mail de 24 de janeiro de 2013, mesmo dia em que o Vine foi lançado no iOS, o vice-presidente Justin Osofsky propôs fechar o acesso do aplicativo ao Facebook, impedindo que os usuários do Vine pudessem encontrar contatos por meio da lista de amigos do Facebook. “A não ser que alguém tenha objeções, vamos fechar o acesso deles à API de amigos hoje.”

“Beleza, siga com isso”, respondeu Zuckerberg.

Acesso a dados telefônicos dos usuários

Buscando sempre mais informações de seus usuários para explorar, o Facebook tentou até mesmo acessar o registro de ligações e SMS deles para sugerir os contatos como amigos na rede social. E fez isso sabendo da reação negativa que geraria em termos de relações públicas, como mostra um e-mail escrito por Michael LeBeau, então gerente de produto da rede social.

Reagindo à publicação a respeito do tema, a rede de Zuckerberg se defendeu dizendo que o recurso seria ativado via “opt in” – ou seja, com a autorização do usuário. Um e-mail assinado por Yul Kwon, do departamento de crescimento, no entanto, diz que a equipe estava explorando a possibilidade de “apenas pedir acesso à lista de chamadas”, e a partir daí haveria como o Facebook dar um “upgrade” na autorização, permitindo acesso também aos contatos do telefone, sem a menção explícita ao usuário.

O que é bom para o mundo não é necessariamente bom para o Facebook

Discutindo novamente o acesso de aplicativos à base do Facebook, Mark Zuckerberg externou a preocupação de que, seja quais outras plataformas as pessoas usem, o importante é que eles compartilhem conteúdo em sua rede social. Mesmo que isso não fosse bom para as pessoas ou para o mundo em si.

“Isso poderia ser bom para o mundo [compartilhar conteúdo em outros sites e apps], mas não é bom para nós, a não ser que as pessoas tragam aquilo para o Facebook, e que isso aumente o valor de nossa rede. Então, em último caso, acho que o propósito de nossa plataforma – mesmo do ponto de vista da leitura – é trazer o compartilhamento para o Facebook.”

Preço dos dados: 10 centavos ao ano?

Uma das alegações que o Facebook ainda pode fazer em defesa própria é que nunca comercializou de fato dados dos usuários. Mas agora se sabe que a possibilidade foi ao menos discutida pelos executivos da empresa.

Em outubro de 2012, Zuckerberg discutiu um modelo de monetização em que desenvolvedores terceiros poderiam dar ferramentas para compartilhamento de informações dentro do Facebook de graça. Mas que, para ler os dados dos usuários, teria que pagar.
O custo possível chegou a ser estimado em 10 centavos de dólar ao ano por usuário – o que pode parecer pouco, mas geraria no mínimo milhões de dólares atualmente, considerando  a base atual de 2,2 bilhões de usuários da rede.

A maior ameaça ao Facebook?

Uma mensagem do executivo Sam Lessin para Zuckerberg em 2012 traz uma interessante visão de como o Facebook encara seus competidores. Falando sobre as “ameaças” ao negócio da rede, Lessin disse que a maior delas não se trata de nenhuma rede social específica – mas, sim, a pulverização das informações que os usuários centralizam no Facebook. “A ameaça número um ao Facebook não é nenhuma rede social em grande escala, é o ‘fraturamento’ da informação/morte devido a milhares de pequenos apps verticais que estão vagamente integrados integrados de forma conjunta”, diz.