Portugal perde na Roménia ou a crónica de uma derrota anunciada

Portugal pode-se queixar de muita coisa nesta sua viagem a solo romeno para realizar um jogo decisivo para o seu futuro próximo, mas não das condições climatéricas que encontrou em Baia Mare, cidade situada em pleno coração da Transilvânia, terra de vampiros, para este “play-off de acesso ao Europe Championship, o mais alto patamar do râguebi europeu, do qual Portugal saiu em 2016. Sol, temperatura amena (15º C) e um relvado em bom estado. O pior foi mesmo, e como já se esperava, o forte adversário que lhe surgiu pela frente agora treinado pelo antigo internacional francês Thomas Lièvremont.

Alinhando um quinze em que 10 jogadores realizaram dois jogos competitivos nos últimos oito meses (!!!), seria desmesurado pedir mais do que aquilo a que se assistiu por parte dos nossos Lobos: atitude, coragem, entrega e alma q.b., mas muita leveza e uma profunda incapacidade para criar problemas à equipa contrária que, jogando devagar-devagarinho para os atuais padrões das seleções de topo mundial (onde a rival Geórgia já se encontra…), acabaria por realizar um treino apenas razoável antes dos seus compromissos com Estados Unidos e Uruguai nas próximas duas semanas.

Entrando a dominar, a equipa da casa faria de rajada dois ensaios ainda antes dos 8″ através do ponta Ionut Dumitru (no segundo, Pedro Silvério, ao deixar bater a bola ficou fora do lance e mal na fotografia…), para 12-0 que anunciavam o que aí vinha.

Mas Portugal reagiu e depois de uma longa sequência de três minutos de fase à mão em que só portugueses tocaram na oval (seria caso único no encontro!), Jorge Abecassis com tempo e espaço, apontou o seu primeiro “drop” internacional de 30 metros, reduzindo para 12-3.

A perder sistematicamente bolas na luta no solo – pecha que há que melhorar muito no râguebi português – os Lobos não conseguiam quebrar a linha de vantagem (apenas Tomás Appleton, o melhor dos jogadores nacionais, ia tentando e foi pena o seu abandono, por lesão, ainda a metade do 1.º tempo…) e o jogo tático ao pé em estilo “vamos despachar isto para ver se resulta” não causava qualquer embaraço aos romenos.

E se as fases estáticas de conquista de bola até nem corriam muito mal como se poderia esperar – equilíbrio nos alinhamentos (sem contestação dos romenos) e óbvias dificuldades nas mêlées, mas já vimos muito pior -, o que é um facto é que a seleção nacional continuava espartilhada no seu meio-campo. E assim foi com toda a naturalidade que a equipa da casa faria mais dois ensaios até ao intervalo pelo estreante defesa Melinte e o “centurião” Catalin Fercu, para 22-3 no descanso.

Temia-se uma 2.ª parte bem complicada que desnivelasse o resultado para números assustadores, mas tal não viria a acontecer, em especial por culpa de um Roménia em serviços mínimos – e que teve três lances de ensaio iminente nos últimos minutos inviabilizados por obstrução de seus jogadores e bem descortinados pelo excelente árbitro inglês Ian Tempest.

A abrir o 2.º tempo uma falta romena seria aproveitada por Nuno Sousa Guedes para fazer os derradeiros pontos nacionais no jogo aos 42″ (22-6). Mas a resposta viria em força pelo pack romeno, com o gigante n.º 8 Gorcioaia a concluir, a curta distância, uma sucessão impressionante de fases à mão em exclusivo pelos avançados.

As dificuldades acentuavam-se para o quinze de Martim Aguiar que começava a esvaziar o banco de suplentes, e sem pisar os 22 contrários – tal só aconteceu por uma vez nos últimos 40 minutos, numa boa jogada do elétrico Sousa Guedes, com Francisco Vieira e Rodrigo Freudenthal, mas que acabaria por não resultar -, Portugal como que convidava a equipa da casa a acampar de armas e bagagens na nossa área de 22. E à hora de jogo, um rápido ataque à mão seria concluído pelo ponta Zaharia a fazer os 36-6 que, ninguém acreditaria na altura, seria mesmo o resultado final. Quando ainda havia 20 árduos minutos para disputar…

Mas a Roménia facilitou e perante a boa defesa nacional (pena os “breakdowns” onde continuávamos a ser pouco mais que espetadores atentos, veneradores e não interventivos…), o resultado acabaria mesmo por não sofrer alteração. O que, face às circunstâncias que presidiram ao jogo para Portugal – insuficiente preparação, falta de jogos competitivos, ausência de jogadores-chave nos últimos tempos no quinze de Martim Aguiar, zero de atletas jogando em França, etc. etc. – terá que ser considerado um resultado negativo mas que não deslustra perante uma seleção colocada sete lugares acima no ranking mundial.

E assim, em terra de vampiros, o muito inexperiente quinze português foi mordido, mas saiu quase incólume e com um lote de novos elementos que, com outras condições, podem erguer o râguebi nacional a outros patamares onde já estivemos. Assim o queira (e possa…) a Federação.

Portugal alinhou e marcou: Nuno Sousa Guedes (3); Rodrigo Freudenthal, Vasco Ribeiro, Tomás Appleton, Pedro Silvério; Jorge Abecassis (3), João Belo; Francisco Sousa, David Wallis, Salvador Vassalo (cap.), José d”Alte, Salvador Cunha, Diogo Hasse Ferreira, Nuno Mascarenhas e José Lupi.

Entraram todos os suplentes, ou seja, os estreantes José Sarmento, José Roque e Rodrigo Marta, e ainda João Bernardo Melo, Rui d”Orey, Francisco Vieira, António Vidinha e Francisco Bruno.

O próximo compromisso de Portugal será dentro de duas semanas, em Taveiro, com os Lobos a defrontarem a “mundialista” Namíbia.