Imprevisível, perigoso, SuperClásico: é dia de Boca Juniors vs. River Plate, a maior rivalidade do mundo

Não é por acaso que lhe chamam o SuperClásico: da Bombonera, junto às docas de Buenos Aires, ao Monumental Antonio Vespucio Liberti, no bairro de Belgrano, vão 13 quilómetros, mas talvez os 13 quilómetros mais tensos e intensos da história do futebol, 13 quilómetros que comportam em si tantas diferenças sociais, tanto anedotário, tanto exemplo de febre, devoção e loucura que se a palavra rivalidade tivesse uma medida científica, seria essa: 13 quilómetros. É a maior rivalidade do mundo e estamos apenas a horas de assistir à mais pura e explosiva das suas versões: o primeiro SuperClásico disputado numa final da Libertadores (a Champions da América do Sul), o que equivale a dizer que é o mais importante Boca Juniors-River Plate de todos os tempos, o jogo mais quente, mais imprevisível, mais propício à alucinação – e mais perigoso da história do futebol (este sábado, às 20h, com transmissão na Sport TV)

Tão importante, tão quente, tão imprevisível, tão perigoso que aqueles 13 quilómetros demoram mais de cinco anos a percorrer.

É possível que estejam neste momento a pensar que há exagero nestas palavras – mas não: só em agosto deste ano é que os adeptos das equipas visitantes puderam voltar a entrar em estádios quando as suas equipas se deslocavam ao terreno de um rival – e mesmo assim, isto não em jogos que envolvam os cinco maiores clubes argentinos.

Eis uma informação que, por esta altura, não será inesperada: a decisão da federação argentina, de banir dos estádios (por cinco longos anos) os adeptos dos clubes visitantes, surgiu num SuperClásico, quando (corria o ano de 2012) os adeptos do River acharam por bem lançar um porco insuflável, vestido com as cores do Boca, na direção dos adeptos do Boca. Em favor dos adeptos do River deve dizer-se que os adeptos do Boca são conhecidos por los bosteros, à conta da enorme quantidade de bosta que era usada na indústria da construção, que grassava pela zona da Bombonera, há muitas décadas.

Alfredo Di Stefano em 1956 (STAFF/AFP/Getty Images)

Portanto: porco insuflável vestido com as cores do Boca, lançado na direção dos adeptos do Boca – qual terá sido o resultado? Uma aproximação científica a este problema, que visasse reproduzir os efeitos do ato supra-citado, envolveria um fósforo, um barril de pólvora e oxigénio. Exato: houve porrada basta. De então para cá nunca mais ninguém pôde ir a um estádio na condição de visitante – e se em Agosto a proibição caiu, não caiu nos jogos dos maiores clubes, o que significa que ninguém percorrerá os 13 quilométros de distância, os tais que simbolizam diferença de classes mas não de fervor.

Uma ironia subjaz a toda esta rivalidade: como com outros casos de inimizade profunda e radical, ambas as fações vêm do mesmo sítio.

É assim desde o início, o que significa que é assim há mais de cem anos, quando os dois clubes foram fundados (ambos) em La Boca, as docas de Buenos Aires – o nascimento do River data de 1901, o Boca surge quatro anos depois. No entanto, em 1925 o River mudou-se para Belgrano (e não Nuñez, como muitas vezes se diz), uma zona mais rica, o que lhes vale, até hoje, o epíteto de Los Millonarios. Fazendo juz à alcunha, na década de 1930.

Maradona com a camisola do Boca Juniors num duelo com Eduardo Berizo do River Plate, 25 October (DANIEL LUNA/AFP/Getty Images)

Dois clubes nascidos na mesma zona, da mesma gente – e até hoje o Boca é o clube do povo e o River dos ricos; pelo menos no imaginário popular, porque na prática ambos os clubes têm adeptos dos mais variados estratos sociais. As rivalidades saltam também para as alcunhas: os do Boca são conhecidos por xeneizes, isto é: genoveses, já que o clube foi fundado pela comunidade italiana das docas. Mas para os do River os do Boca são los chanchitos, os porquitos.

E ambos dominam o futebol argentino – entre ambos têm 70% dos títulos, 36 para o River, 33 para o Boca – possivelmente têm a mesma percentagem de adeptos do país. Em compensação, o Boca leva seis Libertadores, enquanto o River leva apenas três. No confronto direto, o Boca também leva vantagem – sendo que nunca desceu de divisão, ao contrário do que aconteceu ao River, em 2011.

Também é deles o privilégio quase exclusivo de gerar mitos e se há lista, neste mundo pejado de listas de tudo e mais alguma coisa, se há lista que vale a pena enumerar é a dos extraordinários jogadores que passaram por ambos os lados: pelo Boca actuaram Maradona, o mini-Maradona Juan Riquelme e essa máquina de fazer golos que é Martin Palermo – aliás, Riquelme e Palermo faziam parte da equipa que bateu o Real Madrid na Taça InterContinental, em 2000; do lado do River há Di Stefano, que daí partiu para cinco Taça dos Campeões Europeus com o Real Madrid, e Enzo Francescoli, o ídolo de Zinedine Zidane.

Pablo Aimar enquanto jogador do River Plate, contra Julio Marchand do Boca Juniors (DANIEL GARCIA/AFP/Getty Images)

Não devemos diminuir o poder de dois destes nomes, Maradona e Di Stefano, que facilmente poderiam ser considerados os dois melhores jogadores do mundo (e facilmente se colocaria um outro argentino no pódio). A simples existência de um clássico no qual surgiram estes dois, partindo daí para a glória mundial, torna este um jogo com uma carga mítica brutal.

Com uma história tão longa, seria de esperar que os dois clubes se tivessem encontrado em finais inúmeras vezes, mas não, foram só duas: em 1976 o Boca venceu o Argentino; em 2017, a Supercopa Argentina foi para o River.

O que não invalida que haja um sem número de jogos que ficaram para a história. O embate de 1981 é sinónimo de glória de (obviamente) Diego Armando Maradona, que controla um cruzamento da direita antes de contornar o guarda-redes do River – no final havia três para o Boca (que jogava em casa) e zero para o River.

Roman Riquelme (FABIAN GREDILLAS/AFP/Getty Images)

Em 2000 há jogo histórico e anotem bem os quatro da frente do River: Aimar, Ortega, Saviola e Juan Pablo Ángel; o jogo era para a Libertadores, o River trazia um vantagem de 2-1 da primeira mão – e quem ganha é o Boca, 3-0.

Não obrigatoriamente pelas melhores razões – há o caso (e isto talvez dê uma ideia da intensidade e tensão de que falámos) do jogo que não acabou, porque os adeptos do Boca atiraram spray pimenta para os jogadores do River, quando estes voltavam para o campo, ao intervalo. Há quase três anos, em janeiro de 2016, houve cinco expulsos, leram bem: cinco, depois de Tevez ter espetado uma cabeçada em Maidana.

E não podia deixar de haver jogos caricatos, como o de 1986, na Bombonera, em que os jogadores do River, contra o que estava planeado, resolveram fazer uma volta de honra ANTES do começo do jogo, irritando os adeptos do Boca ao ponto de estes atirarem tanto papel higiénico para o campo que a bola teve de ser trocada – em vez de branca (que não se distinguia dos rolos) uma laranja.

Javier Saviola celebra um golo pelo River Plate num jogo contra o Boca Juniors, a 15 de outubro de 2000 (DANIEL GARCIA/AFP/Getty Images)

A lista das fagulhas que se transformam em incêndios inclui jogos das camadas jovens – e incêndios, literalmente. O exemplo é desta semana: em Buenos Aires, dois homens (cunhados, ainda por cima) desataram a discutir por causa da final, um deles chateou-se, virou costas, foi a casa do outro – e botou-lhe fogo.

Talvez por tudo isto, os dois jogos da final (a última Libertadores a ser disputada a duas mãos), não terão adeptos visitantes – e isto apesar de o próprio presidente argentino, Mauricio Macri, ter apelado ao levantamento da proibição. Em vão: não haverá visitantes em nenhum dos jogos. Perde a cor, ganha a segurança.

Não importa: quem alguma vez viu um SuperClásico sabe que a Bombonera, com as suas bancadas com uma inclinação imensa, que criam um clima intimidante, será uma fornalha. Isto é mais que um jogo – é o choque (pelo menos no imaginário mítico) entre duas tribos, duas classes sociais, a força do povo contra o poder do cheque.

Não há melhor incêndio, no futebol mundial.

Boca Juniors vs. River Plate passa em direto às 20h na Sport TV