Ana Bola sobre DONOS DISTO TUDO: «Não sabemos se o programa vai continuar»

A poucas semanas do final do ano, Ana Bola e o restante elenco do programa de humor da RTP1 Donos Disto Tudo ainda não sabem se vão ter trabalho em 2019. A revelação é feita pela atriz de 66 anos que se confessa cada vez mais desiludida com a televisão.

No próximo ano, Ana Bola vai regressar aos palcos mas, a partir de 22 de novembro, o público vai poder ouvi-la no grande ecrã como uma das vozes do filme de animação Grinch.

Donos Disto Tudo vai na quarta temporada. O programa é quase um noticiário de fim-de-semana.

Pois é, às vezes mais eficaz do que o próprio noticiário (risos) ! Eu acho que o programa está a correr bem. Não sabemos se vai continuar se não vai.

Está previsto até quando?

Até fim de dezembro. Como estamos em novembro, seria interessante…

Ainda não vos disseram nada?

Absolutamente nada! Neste momento ninguém sabe se o programa continua além de dezembro. O que, no nosso caso, é um bocadinho ingrato porque temos de ter um plano B. Se não tivermos trabalho em janeiro, temos de ir fazer outra coisa qualquer, nem que seja servir à mesa, aviar copos… já aconteceu a quase todos nós. Parece-me só um bocadinho estranho que, nesta altura do campeonato, não tenhamos nenhuma novidade.

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O contrato acaba no fim de dezembro e estamos todos nesta situação de não sabermos se o programa continua. Estamos à espera. Felizmente, no caso dos atores que participam neste programa, todos – e eu incluo-me neste grupo – têm uma alternativa. Ou vamos fazer teatro,  não sei se alguns dos meus colegas têm convites de outras televisões, acredito que sim e espero que sim. O que me parece é mesmo muito insólito.

donos disto tudo
Gabriela Barros, Ana Bola, Manuel Marques e Eduardo Madeira

«Às vezes, as condições são muito complicadas»

São três anos de programa…

São três anos de pessoas que trabalham, às vezes, em condições muito complicadas. As pessoas não têm de saber isso mas, às vezes, as condições são muito complicadas.

Gravam o programa com pouco desfasamento da transmissão.

Com três dias de desfasamento. Mas não é isso que é complicado. São outras coisas.

Sendo o único programa de humor da televisão portuguesa neste momento, se calhar estava na altura de vos darem esse reconhecimento…

Era! Era só um telefonema a dizer assim ‘olhem, o programa continua’ ou ‘o programa não continua’. Ou até podiam entreter-nos e diziam ‘nós estamos aqui a pensar como é que havemos de fazer. Deem-nos mais uma semaninha ou duas’. Mas nem isso. Nada! Zero.Tenho imenso apreço pelo diretor [de programas] da RTP, pelo [José] Fragoso, como tinha, de resto, pelo Nuno Artur [Silva] mas isto é uma constante na RTP. Não é caso único. As pessoas estão penduradas até ao fim dos contratos, sem saberem se vão ter programa, se não vão ter programa. Eu não consigo perceber isto. É assim que estamos e é assim que se trabalha. Sem rede.

Via o Donos Disto Tudo ao vivo?

Via, via! Completamente! É facílimo de fazer. Atenção, nunca poderia ser uma coisa tão perfeita como é em televisão mas o contacto com o público, o facto de ser feito ao vivo, a espontaneidade, se calhar substituía uma coisa ou outra menos preciosa.

Entre o elenco e tendo em conta que existe esta incerteza… embora vocês já estejam habituados…

Mas sabe que ninguém se habitua! Ninguém se habitua. Nós estamos sempre à espera que as coisas sejam diferentes, que haja um bocadinho mais de respeito por pessoas que estão a trabalhar há anos no mesmo projeto mas chegamos à triste conclusão que não. Que é mesmo assim. Faz parte. Eu não me conformo e os meus colegas também não. Não nos conformamos. O que me parece é que está instituído que é assim e quem quiser quer, quem não quiser, não quer.

Mas isso é, em geral, assim em todas as profissões.

É assim em tudo. Ninguém sabe se, amanhã, é enfermeiro ou não, se é médico ou não. Mas é muito mau, não é? Sobretudo para pessoas que vivem em intermitência, que é o nosso caso. Em janeiro, se não trabalharmos, como é que vamos pagar as rendas de casa, como é que vamos pagar os lares dos nossos velhotes… como é que é? Chegamos ao supermercado e dizemos ‘olhe, agora não lhe pago, só quando me pagarem. Não tenho programa!’. Isto não é possível.

«Desiludi-me imenso com a televisão»

Houve algum momento da sua carreira que tenha sido tão instável como este?

Eu acho que este é o pior. Isto tem vindo a piorar. Eu estava convencida… eu desiludi-me imenso com a televisão. Eu sabia que nunca ia ser um mar de rosas porque estamos em Portugal, o mercado é muito pequenino. Há uma série de contingências que definem que as coisas sejam como são. Mas nunca imaginei que iam piorar a este ponto de não se saber se há trabalho, de se ganhar menos do que se ganhava há 20 anos… é sempre a piorar. Ao contrário do teatro, que acho que é sempre a melhorar. Porque quando as peças são boas, quando o público gosta dos atores que as estão a fazer, as salas estão cheias.

Temos o caso da peça do Joaquim Monchique, Mais Respeito que Sou Tua Mãe, que está há anos em cena.

O Joaquim Monchique está sempre a rebentar! Há uma peça agora no teatro Villarett [Os Vizinhos de Cima, com Fernanda Serrano, Ana Brito e Cunha, Rui Melo e Pedro Lima] que está sempre esgotada! Isto quer dizer alguma coisa! Digamos que o teatro se tornou uma coisa muito mais higiénica do que a televisão.

E havia tanto a ideia de que não havia apoios, de que o teatro não dava dinheiro…

Estou a falar em teatro comercial.

Criou-se uma indústria com sucesso.

Sim! Este teatro sustenta-se a si próprio. Eu trabalho com uma produtora, a Força de Produção, que tem sucesso, lucro, tem peças em cena. E aquela velha história de que as pessoas iam ver quem viam na televisão também já não é bem assim. As pessoas vão ver os atores que veem na televisão e que têm carreiras consolidadas! Aquela história de ‘apareces na televisão, as pessoas vão ver-te ao teatro’, é mentira.

No teatro não dá para disfarçar.

Televisão… hmm… Comédia já não. Uma novela, há uns papéis em que a coisa passa, até parece que corre bem. Agora, em teatro, não há pão para malucos. Hoje em dia, prefiro mil vezes fazer teatro.

Quando é que vai voltar aos palcos?

Muito brevemente. Segredo!

Sozinha ou acompanhada?

Acompanhada! Muito bem acompanhada!

Em 2019?

Sim.

«Se pudesse, vivia só de dobragens!»

No filme de animação Grinch, dá voz à Mayor da Vila-Quem. Como é participar na adaptação de um conto clássico americano?

O que achei um piadão é que esta voz nos EUA é feita por uma das atrizes de quem sou fã desde miúda, a Angela Lansbury, da série Crime, Disse Ela. Tem 93 anos! Pensei ‘olha, há esperança (risos) ! Está aqui uma atriz mais velha do que eu a fazer isto!’. Antes de gravarmos, fazemos uma espécie de casting e, depois, os senhores americanos decidem se as vozes se coadunam.

O que é certo é que a minha foi muito aplaudida. Deu-me imenso gozo fazer, embora tenha sido muito curtinho, porque das coisas que mais gosto de fazer é dobragens. É uma forma de brincar, de fazer outras personagens, de não estarmos expostos e de sabermos que estamos a fazer aquilo para um público muito exigente, o infantil. É um trabalho que adoro fazer. Se pudesse, vivia só de dobragens!

Esta visão do Natal do The Grinch parece cada vez mais subversiva. As histórias estão tão higienizadas que continuar a haver versões desta história é extraordinário.

Acho muito bem! Até acho que deviam ir um bocadinho mais longe. Este mundo fofinho do Natal que nos querem impingir – e que não é de agora – é um muito muito mentiroso. A vida não é assim. Eu concordo que se tenha de adocicar algumas coisas, sobretudo quando estamos a falar crianças. Tem que se dar uma no cravo, outra na ferradura. Não é obrigar a dar o beijinho à avó mas também não é dizer ‘não dês que não vale a pena!’. O Natal, como tantas outras celebrações, transformou-se numa venda de produtos.

O que é que as crianças querem no Natal? Presentes! A não ser que seja um menino tão católico, tão católico, que queira só ir à missa do galo (risos)! Seria um grande galo para esse menino (risos)! O mundo está como está, não está bonito e o Grinch faz todo o sentido. É adocicado, sim. É para vender. Tem de ser.

Texto: Raquel Costa | Fotos: Marco Fonseca e Arquivo Impala