A vida de Kapuscinski sai em livro quando se estreia filme da sua reportagem em Angola

A biografia foi escrita por um outro jornalista polaco, Artur Domoslawski, que se lançou, alguns anos após a morte de Ryszard Kapuscinski, na “complicada tarefa de desentranhar as chaves” da obra e vida do homem que se tornaria famoso por elevar a reportagem à categoria da literatura, e por dissecar, de uma forma única, os mecanismos do poder e o mundo em transformação, após a Segunda Guerra Mundial, lê-se na contracapa do livro, editado pela Assírio & Alvim.

Publicada originalmente na Polónia em 2010, por decisão de um tribunal, depois de a viúva de Kapuscinski o ter tentado impedir, a biografia revelava que o jornalista fantasiava muito das suas reportagens, que “tinha a sua própria teoria sobre o atravessar de fronteiras entre a ficção e a não ficção”.

O escritor Richard Zimler escreveu, a este respeito, que “embora vários jornalistas tenham influenciado muito mais do que Ryszard Kapuscinski o curso dos acontecimentos mundiais do século XX, poucos, ou mesmo nenhum, foram tão talentosos e inteligentes enquanto escritores”.

“Kapuscinski era um observador extraordinário, um repórter inteligente e talentoso que expressava os seus pensamentos e ideias de formas únicas e criativas”, considerou.

Esta sua característica de observador fica expressa na biografia, quando Domoslawski reproduz os relatos de vários amigos do jornalista, que contam como saíam de cada um dos encontros que tinham com ele, com “a impressão de que tinham tido uma conversa fascinante e inesquecível”.

E agora que eram instados pelo biógrafo a lembrarem-se de situações concretas, “davam-se conta de que eram eles quem falava”. “Ele não dizia nada. Apenas escutava”, acrescenta.

Quando tenta descrever Kapuscinski, Domoslawski diz que o que chamava a atenção era o seu sorriso, como se nunca estivesse triste, e um comportamento acanhado, como se estivesse a pedir desculpa.

“Um sorriso defensivo que deixava a porta aberta para a retirada”, escreve Domoslawski, que cita uma “velha amiga” de Kapuscinski, que “o conhecia realmente bem” e que assegura que o seu ar de modéstia era uma “máscara”, e que o seu sorriso não era mera simpatia.

“Ele servia-se do sorriso para desarmar quem pudesse feri-lo. Àqueles soldados que o deixavam atravessar as zonas proibidas em África quando podiam matá-lo. Aos que, no Partido Comunista, o autorizavam a viajar para o estrangeiro. Aos que podiam invejá-lo, e não faltam na profissão jornalística. Por que não tentar descobrir se ele aprendeu a sorrir daquela maneira durante uma guerra, se aquele sorriso não lhe salvou a vida?”, relata.

A resposta surge num capítulo da biografia em que Domoslawski transcreve uma conversa que teve com o general Farrusco, o alentejano que se juntou ao MPLA depois do 25 de Abril, hoje general das Forças Armadas angolanas, em que este lhe conta como Kapuscinski esteve com eles durante os combates no sul, e como ele, “quando era necessário, também disparava”.

Domoslawski confessa que duvidou de Farrusco, mas as entrevistas a Kapuscinski na década de 1970 não deixam margem para dúvidas, uma vez que o próprio assume que houve situações em Angola em que teve de pegar numa arma e disparar, mas esta era a exceção à regra.

A regra era “ir para a frente sem nada, pois se te apanharem podes defender-te com o facto de estares desarmado, fingir que foste ali parar sem querer, sorrir de maneira estúpida e mostrar as melhores intenções”.

Os trabalhos desta reportagem que Kapuscinski fez da guerra em Angola, entre o 25 de Abril de 1974 e a independência angolana, foram vertidos num livro intitulado “Mais Um Dia de Vida – Angola 1975”, que foi adaptado ao cinema e se estreou nas salas portuguesas esta semana.

Trata-se de um filme do espanhol Raúl de la Fuente e do polaco Damian Nenow, que combina o cinema de animação com o trabalho de pesquisa documental sobre aquele período de vida de Kapuscinski, da história de Angola, dos movimentos de libertação e da saída de portugueses do país.

O filme será exibido no próximo dia 12, na abertura do Cinanima – Festiva Internacional de Cinema de Animação de Espinho.

Para deitar mão à obra de escrever a biografia de Kapuscinski, Artur Domoslawski percorreu os mesmos caminhos que o repórter polaco percorreu, e investigou as suas relações com o regime comunista polaco, os casos da sua vida privada e até que ponto são fiáveis os dados que apresenta nas suas obras.

Esses são aspetos que Richard Zimler destaca, no texto que escreveu para a biografia de Kapuscinski, quando recorda que aquele que é tido como o “repórter do séc. XX” foi também “uma figura muito controversa no seu país, pois jamais se teria tornado correspondente internacional privilegiado da Agência Polaca de Imprensa, sem se submeter às diretrizes e limitações impostas por um regime autoritário e de domínio soviético”.

Richard Zimler nota ainda que, para quem seguia de perto a carreira de Kapuscinski, havia outra razão para duvidar dos seus escritos: existiam rumores de que adicionava floreados ficcionais aos seus artigos jornalísticos.

No final, sublinha que o biógrafo explorou, com “a seriedade merecida”, estas críticas a Kapuscinski, traçando um retrato “fascinante de um homem complexo e não raro contraditório”.

Durante as muitas conversas que tiveram ao longo dos últimos dez anos de vida de Kapuscinski, — “que gostava muito de bisbilhotice” –, Domoslawski nunca lhe perguntou “como se fazia carreira na República Popular da Polónia, que cordelinhos tinham de se puxar, a quem era preciso sorrir e qual era o preço a pagar”, porque percebeu que ele não gostava que lhe perguntassem pelo passado, e “mudava habilmente de assunto”, escreve o biografo.

Domoslawski também nunca questionou Kapuscinski sobre se, “por acaso, não romancearia ou fantasiaria um pouco as coisas, o que alguns críticos estrangeiros lhe censuravam”.

Agora, quando, na sua peugada, viaja pelos países por onde andou e sobretudo quando fala com os seus amigos e conhecidos, descobre um Kapuscinski que lhe parece “quase um estranho”.

“Quem quer que o tivesse visto ou ouvido dificilmente acreditaria que aquele homem afável e sempre sorridente tivesse sido capaz de agarrar um funcionário pelos colarinhos, encostá-lo à parede e gritar-lhe enquanto o sacudia: ‘Como te atreves, filho da mãe!'”, conta.

Domoslawski tenta transmitir a mesma mensagem que Kapuscinski sempre procurou fazer em vida: que, sem entender o contexto de uma existência, ninguém tem o direito de a julgar. E confessa que, enquanto escreveu o livro, teve de lidar com a dificuldade de não deixar a amizade e a admiração matar a indagação.