A última cartada de José Mourinho

José Mourinho está sozinho.

É fim de tarde de uma terça-feira em novembro. Mourinho está sentado em um banco próximo a janela do terceiro andar no Lowry Hotel, em Manchester, Inglaterra. Seus auxiliares estão reunindo os acessórios. Seus jogadores estão pegando seus kits de higiene. Um piso abaixo, o bar conta com uma multidão enérgica antes do jantar. (Feliz aniversário, Maureen!) No lado de fora, o ônibus do Manchester United está parado ao lado de torcedores esperançosos em ver alguém famoso.

Mourinho aguarda. Ele sempre parece pequeno ao lado dos seus jogadores (prefere os mais altos), mas mesmo com seu estilo, perna esquerda cruzada sobre a direita e mãos atrás dos curtos cabelos grisalhos, o 1,75m de Mourinho é rijo — um picolé preso em trajes esportivos.

Um segurança aguarda no elevador. Um hóspede do hotel sai após claramente ter pressionado o botão errado e o segurança usa sua força. O hóspede ergue os olhos e reconhece Mourinho de imediato. Ele grita: “Pegue eles, José!” (ele pronuncia “Jo-zay”) e sorri. Mourinho demonstra a expressão de quem bebeu leite azedo. Ele não se mexe. Não está olhando o celular. Não está revisando papéis. Está sentado, encarando o nada.

O elevador se abre novamente. Três funcionários do Manchester United aparecem. Chegou a hora. Mourinho continua sem se mexer. Há umas duas ou três (ou quatro) batidas. Os funcionários se encaram confusos. Mourinho finalmente se levanta. Ele não se desculpa pela esquisitice ou pelo espaçamento. Ele apenas olha para eles e segue em direção ao ônibus.

Há outra partida esta noite. Outra partida, outro espetáculo, outro plebiscito no carnaval daquele que é um dos maiores (e mais polarizados) técnicos de futebol da história, conduzindo um dos maiores (e mais polarizados) times do mundo rumo ao um caos diário. Sua equipe de US$385 milhões ocupa a sexta posição, foi derrotado pelo Brighton e Tottenham, e tem chances remotas de conquistar a Premier League mesmo antes do Dia de Ação de Graças. (Também foram derrotados pelo West Ham). Esta é a vida de Mourinho agora. Ele se senta no lado direito na frente do ônibus. O assento ao seu lado está vazio.

Logo depois no Old Trafford, o Teatro dos Sonhos, estádio onde o Manchester United comemorou seus 20 títulos nacionais e 12 conquistas da Copa da Inglaterra, Mourinho vê seus jogadores marcarem rapidamente contra o time da segunda divisão, Derby County, pela Copa da Liga Inglesa. Ele vê seu antigo jogador, Frank Lampard, agora técnico do Derby, levar os visitantes azarões ao empate e, então, ficarem à frente do placar. Quando o Manchester United marca o improvável gol de empate nos acréscimos do segundo tempo, Mourinho dá um único soco no ar na beira do campo.

Durante a disputa de pênaltis, Lampard fica abraçado com seus auxiliares e jogadores. Eles encaram a pressão juntos. Mourinho fica atrás do seu time, sozinho, agitado e sem olhar para o gol onde a disputa está acontecendo.

O Derby vence. Os corajosos azarões vencem o gigante. Os torcedores do Manchester United vaiam o time (de novo). Mourinho dá uma entrevista sucinta à televisão (de novo). Mourinho faz um comentário indelicado sobre um de seus jogadores (de novo) e as mídias sociais incitam a polêmica (de novo — falarei mais sobre isso depois).

Quando tudo está acabado e guardanapos de papel estão amassados na vazia Sir Matt Busby Way, Mourinho e seus auxiliares ficam dentro do estádio durante horas. Reúnem-se no escritório de Mourinho e analisam os relatórios de olheiros e esquemas táticos. Conversam sobre os jogadores e sobre a próxima partida. Eles se planejam.

“José [Mourinho] está acostumado a vencer. E quando não ganha, fica um pouco mais difícil conviver com isso”.
RICARDO CARVALHO

Já passa da meia-noite quando vão embora, perto da 1h quando Mourinho retorna ao The Lowry. O bar está silencioso. Os torcedores e seguranças foram embora.

Mourinho, 55 anos, é técnico do Manchester United há mais de dois anos, mas o Lowry, um hotel renomado e ultrapassado, continua sendo seu lar. Pep Guardiola, o técnico catalão do Manchester City e rival antigo de Mourinho, aceitou morar no norte da Inglaterra, tendo inaugurado um restaurante em Manchester e se instalando em um apartamento no centro da cidade. Mourinho resistiu. Sua esposa e filhos moram há mais de 300km, na casa de Londres que compraram na época de Mourinho no Chelsea. Eles raramente vão à Manchester.

Rui Faria, auxiliar de longa data de Mourinho, costumava morar no Lowry junto com o compatriota, mas desistiu em maio. Faria quis passar mais tempo com a família e começar a fazer as coisas do seu jeito. Mourinho e Faria ficaram juntos por 17 anos. Mourinho tem falado aos mais chegados o quanto sente saudades do antigo auxiliar.

Mourinho anda pelo lobby do hotel. Está silencioso. Sem família. Sem seu melhor amigo. Um time que não consegue vencer. Um grupo de jogadores que não querem ouvir ou que talvez tenham se cansado de ouvir. O zelador que está limpando o chão sorri discretamente quando Mourinho passa.

Mourinho sobe no elevador. Até o seu quarto. Para o serviço recusado com macarons em um prato chinês. Para os chinelos felpudos embrulhados em plástico. Para a paisagem de um rio atrás das cortinas que costumam ficar fechadas.

As luzes se acendem. A campainha toca. A porta se fecha. José Mourinho está sozinho novamente e a pergunta o persegue conforme o elevador sobe.

É assim que será o fim?

A diferença entre isolamento e solidão são os três pontos todos os finais de semana, e durante a maior parte de sua carreira, Mourinho tem voluntariamente, se não deliberadamente, se isolado do grupo.

Ele faz isso por conta própria. Seu apelido não é O “Colaborador Especial” ou “O Delegante Especial”. Ele é o “Special One”, e Mourinho adotou o nome quando acumulou títulos em Portugal, Itália, Espanha e na Inglaterra, como prova definitiva do conceito.

Mesmo separado do grupo, sempre houve uma proximidade entre Mourinho e seus jogadores. Ele nutre a relação e a preserva para permitir que seus jogadores sejam — bom, não iguais. Nunca iguais. Mas parceiros juvenis, talvez. Se sentem importantes.

Quando Mourinho treinou o Chelsea pela primeira vez, de 2004 a 2007, houve uma noite em que o time estava no ônibus, após vencer o Blackburn Rovers, indo em direção ao aeroporto tarde da noite. O Chelsea tinha acabado de contratar uma nova nutricionista, e ela fez os jogadores se dedicarem intensamente às suas dietas. Conforme o ônibus se sacudia, a nutricionista preparou refeições saudáveis aos jogadores.

Terry contestou. “Precisamos ser recompensados” ele disse, gesticulando em direção ao fundo do ônibus. Mourinho viu a nutricionista. Ele pensou por um momento e perguntou: “Comida chinesa ou peixe e fritas?” Terry sorriu.

Momentos mais tarde, após uma rápida votação entre os jogadores, Mourinho pediu para o motorista do ônibus encostar. Um dos auxiliares recebeu ordens. Dez minutos depois, o ônibus estava em sua rota novamente. Nos fundos, a nutricionista ficou enfurecida; na frente, Mourinho gargalhava enquanto via seus jogadores se enchendo com bacalhau e batatas fritas.

“Parte da aura, de sua personalidade, era que, quando ele se sentava conosco, relaxávamos na hora”, diz Lampard, que foi comandado por Mourinho durante cinco temporadas. “Ele criou uma verdadeira atmosfera familiar na época, que foi feita de maneira brilhante, na minha opinião. Foi mágico como qualquer uma de suas falas sobre táticas”.

É isso que transforma este capítulo nocivo com o Manchester United em algo tão estranho. Resultados mornos em uma equipe como o Manchester United sempre incendeiam a situação, mas a gasolina desta caso tem sido o relacionamento de Mourinho com a sua equipe.

Também não é apenas má vontade. Desta vez é algo mais profundo, visceral. O sofrimento no rosto de Mourinho, seus olhos sem vida. Às vezes parece que ele realmente não suporta alguns dos seus jogadores.

Isso provavelmente — provavelmente? — é exagero. Mas com Mourinho, as facas penetram fundo. Em uma de suas colunas dos dias de jogo, que geralmente é o lugar para os técnicos se manifestarem, Mourinho escreve aos torcedores do United dizendo que em sua opinião, os jogadores perderam a “dignidade” devido às suas atuações.

Jogadores jovens, como Marcus Rashford e Anthony Martial, são alvos constantes de Mourinho, que no começo do ano foi perguntado sobre as fracas atuações da dupla no lugar de Romelu Lukaku e, ao invés de defendê-los ou desviar da pergunta, disse: “Há 10 meses me perguntam: ‘Por quê sempre Lukaku? Por quê sempre Lukaku?’. Agora vocês sabem o motivo”.

De forma concebível, algumas pessoas podem dizer que as farpas de Mourinho têm um objetivo. Amor duro ou uma tentativa de dar mais resistência aos jogadores em ascensão. Mas como explicar o comportamento de Mourinho após a derrota para o Derby County, decretada após Phil Jones perder a sua cobrança na disputa de pênaltis?

Após sair com passos fortes do campo (e mesmo após abraçar Jones), Mourinho diz, de uma maneira gélida, que conforme a disputa de pênaltis estava em andamento, “eu sabia que estaríamos encrencados” quando ficou claro que Jones precisaria converter sua cobrança.

E o incidente, assim como qualquer outro, colocou a dinâmica entre Mourinho e seus jogadores em um caldeirão ainda mais tóxico. Na mesma semana, Mourinho removeu Paul Pogba do posto de vice-capitão por acreditar que os comentários do francês sobre a falta de estilo ofensivo do United demonstraram imaturidade e egoísmo. Ele também criticou Antonio Valencia, o capitão do time, por não ter ido ao jogo contra o Derby County, embora Mourinho tenha lhe dado a noite de folga.

Jones. Pogba. Valencia. Isso não para. Para os funcionários do clube, parece que Mourinho fica agitado com qualquer coisa — ou qualquer um — que aparece na sua frente.

Tudo isso é feio. Mas para aqueles que conhecem Mourinho, o comentário sobre Jones deixa uma cicatriz diferente. É um Mourinho mesquinho, mais raivoso. Um Mourinho espancando ao invés de ser calculista, que está humilhando seus jogadores ao invés de ter princípios.

“A outra questão é sobre a equipe ou sobre como ela debe ser conduzida, é típico do José”, diz um antigo colega de Mourinho em um dos times pelo qual passou. “Você pode não gostar, mas há uma finalidade, a menos na cabeça dele.

Mas sobre o Jones?”, continua ele. “Isso fez todos pararem. Foi algo diferente. Foi maldade pura”.

HÁ UM ANTIGO ditado sobre como não adianta molhar a plantação do ano passado, mas por favor.

Com Mourinho, a história inteira é sobre a plantação do ano passado (e dos anos anteriores). É sempre a mesma coisa com ele, a mesma história que já ouvimos. As reviravoltas da carreira de Mourinho é uma versão de filmes de terror no futebol: Talvez seja uma noite de “Halloween” ao invés de “Sexta-Feira 13”, mas todos sabem o que acontece. Em algum momento — provavelmente logo — vamos começar a gritar.

Porém, antes dos gritos, começaremos a suar. E enquanto os críticos de Mourinho são relutantes em admitir, sua ascensão é inegavelmente extraordinária.

Pense nisso: enquanto crescia em Setúbal, Portugal, Mourinho idolatrava seu pai, que era jogador, mas o jovem José é um talento mediano e sua mãe quer que ele estude na escola de negócios. Entretanto, Mourinho adora esportes e se torna professor de educação física e técnico local, cuja grande oportunidade surge em 1992 quando Sir Bobby Robson, a estrela inglesa, assume um cargo como treinador em um clube português e precisa de um intérprete.

O poliglota Mourinho consegue a vaga. Ele aprende com Robson em Portugal e continuam juntos quando Robson se transferiu ao Barcelona. Quando Robson saiu do Barcelona, Mourinho continuou no clube catalão com Louis van Gaal, o mestre holandês. Mourinho voltou a Portugal em 2000 e em 2002 comandava o Porto.

Foi lá que ele surpreendeu o mundo ao vencer a Copa da UEFA em 2003 e, ainda mais excepcional, a Liga dos Campeões da UEFA em 2004, revirando a aristocracia ao colocar um time português junto dos times da Inglaterra, Espanha, Alemanha e França. Com apenas 41 anos, Mourinho tem o puro estilo Hollywood — despreocupado, inteligente e dono de um olhar fumegante — e uma abordagem revolucionária. Suas táticas são renomadas.

“Ele fazia você querer atravessar paredes por ele, pois era muito bom”, diz Benni McCarthy, atacante comandado por Mourinho no Porto. “Lembro que ele foi ao meu quarto na noite anterior ao jogo contra o Manchester United na Liga dos Campeões e ele me disse: ‘Sei que suas jogadas de pivô são ótimas. Mas para este jogo contra Gary Neville e Wes Brown você precisará correr por trás deles, pois eles odeiam correr contra o próprio gol'”.

McCarthy ri. “Marquei dois gols e, após o segundo, fui até a beira do campo e ele perguntou: ‘Você fez uma partida ruim?’, então eu perguntei: ‘Como você sabia?’, e ele só me abraçou e disse: ‘É meu trabalho'”.

A estratégia abrangente de Mourinho, desde o começo, foi deixar a equipe adversária desconfortável. Se recusando a seguir o caminho tradicional de treinar seus jogadores em esquemas ofensivos, Mourinho faz da sua missão dominar o jogo impedindo que o adversário faça aquilo que seu estilo propõe. Ao invés de entrar em um duelo durante 90 minutos com a intenção de marcar, Mourinho se concentra na garganta do oponente até que ele sufoque.

“Ele era um técnico à frente do seu tempo na época”, diz Steve Clark, com quem Mourinho trabalhou no Chelsea.

As estratégias de Mourinho também funcionam. Ele foi do Porto ao Chelsea em 2004, um time que não conquistava o título da primeira divisão há meio século onde foi campeão da Premier League em seu primeiro ano, registrando o recorde de menos gols sofridos em uma única temporada. Na Inter de Milão ele venceu mais dois títulos nacionais e outra Liga dos Campeões. No Real Madrid ele conquistou a primeira Copa do Rei em 18 anos e o título espanhol, chegou na semifinal da Liga dos Campeões e se tornou o primeiro técnico na história a vencer a liga, copa, supercopa e copa da liga em quatro países europeus diferentes.

“Ele adora uma equipe bem-organizada”, diz Ricardo Carvalho, que jogou com Mourinho em três times diferentes. “É isso que sempre lembrarei dele, a forma como ele gritava conosco para se certificar que não haveria falhas”.

É uma surpreendente sequência de sucessos e, enquanto há outros técnicos mais vitoriosos, não deveria haver um prêmio àqueles que ingressam no mundo do jogo e vencem através das fronteiras?

O Mourinho no início e metade de carreira faz isso. Ele vence. Muito. Simultaneamente, ele aceita a função de vilão do futebol, um personagem incisivo e provocativo que se diverte tanto em ser um prodígio quanto um charlatão.

Ele adora ser conhecido como o “Special One”, chama o técnico do Arsenal, Arsène Wenger, de “especialista em fracassos” e diz que os jogadores jovens “são como melões — apenas quando você abre e saboreia o melão é possível dizer se ele é bom”.

Ele lamenta que alguns jogadores usem cabelos rastafári, acha que George Clooney poderia interpretá-lo em algum filme, especula que Deus “deve me achar um ótimo cara”, diz que a pressão de verdade é como “gripe aviária… Não é divertida e tenho mais medo dela do que do futebol” e, em um monólogo abstrato, explica que sua equipe bem paga, porém suscetível a lesões, é como “ter um cobertor muito pequeno para a cama. Você o puxa para cima para cobrir o peito, mas seus pés ficam expostos. Não posso comprar um cobertor maior, pois o mercado está fechado. Mas o cobertor é feio de caxemira”.

Mourinho também exige um controle inflexível. Os relatórios dos olheiros para cada jogo são tão grossos que, de acordo com um ex-jogador, não cabem debaixo de um banco do carro” (que é onde alguns jogadores menos analíticos os colocam). Ele prefere jogadores experientes que sejam previsíveis do que jogadores jovens que ainda podem crescer, mas que são irregulares. Ele gosta de jogadores talentosos que não estrelas, pois aceitam suas vontades com mais facilidade.

Resumindo, Mourinho é — nas palavras de um antigo colega — uma “zona de guerra ambulante”. E ele busca batalhas constantemente, divertindo-se com a qualidade do conflito, mesmo se ele ultrapassar os limites.

Às vezes o alvo é um técnico adversário (Wenger, Rafa Benítez). Às vezes é o presidente do seu time (Roman Abramovich, Florentino Pérez). Às vezes — com grande frequência, na verdade — é um dos seus jogadores (Pedro León, Juan Mata, Iker Casillas, Kevin de Bruyne, Bastian Schweinsteiger — deu para entender).

Com Casillas, a lenda da Espanha, Mourinho achou que o capitão do Real Madrid foi desleal ao tentar firmar um pacto de paz com Xavi, do Barcelona, no conflito cada vez maior do Clasico. Mourinho gritou com Casillas na frente de seus companheiros e passou a ironicamente chamá-lo de “o goleiro”, ao invés de usar seu nome.

Com León, Mourinho achou que a atitude do jogador não era humilde. Passou a repreendê-lo constantemente e, de acordo com uma matéria do The Guardian, ele disse que León não jogaria na próxima partida mesmo se um avião caísse e matasse o time inteiro.

Pouco surpreendente, esse não é um estilo para todos. Mourinho esperava poder treinar o Barcelona um dia, onde ele teve uma experiência de formação quando ainda jovem, mas quando surge uma vaga em 2008, o clube catalão contratou Guardiola ao invés de Mourinho.

É uma decisão simples e a lógica é clara. Ferran Soriano, principal diretor do Barcelona na época, explicou a escolha do clube no livro de Diego Torres sobre Mourinho, “The Special One”: “Mourinho é um vencedor”, diz Soriano, “mas para isso, ele cria um nível de tensão que pode se tornar um problema. É um problema que ele escolhe… [e] não queríamos isso”.

É um problema que ele escolhe.

Quase para um homem, aqueles que conhecem Mourinho dizem que ele começou a mudar durante a crise em Madrid e que piorou durante sua segunda passagem pelo Chelsea, uma transformação tão notável que, nas palavras de um ex-jogador, a atual versão de Mourinho “não é do técnico com o qual eu trabalhei”.

Quais mudanças? Bom, tudo e nada. Em maio de 2012, duas semanas após ser campeão da LaLiga com o Real Madrid, Mourinho renovou por quatro anos com a equipe e é considerado o futuro do gigante espanhol — apenas para se queimar ao entrar em confronto com Casillas e Sergio Ramos, brigar com Guardiola e o Barcelona, e abalar as relações com o seu chefe, Florentino Pérez. Ele perseguiu até mesmo Cristiano Ronaldo, sua estrela, com 27 anos e no auge na época, dizendo que ele “talvez ache que sabe tudo e que o técnico não pode ajudá-lo a melhorar”.

Mourinho foi embora menos de um ano depois, mas rapidamente ressurgiu para uma segunda passagem pelo Chelsea, onde ficou ainda mais amargurado. Conseguiu obter sucesso (um título da Premier League em sua segunda temporada), mas é enfraquecido por uma série de erros de conduta, gerando a paranoia desde reclamar sobre árbitros até uma suposta discriminação sexual em 2015, quando a médica do Chelsea, Eva Carneiro, alega que Mourinho a chamou de “filha de uma prostituta” quando entrou em campo para tratar um jogador lesionado sem consultá-lo. A situação é resolvida, mas continua sendo o principal exemplo do que aqueles próximos a Mourinho veem como um crescente — e preocupante — foco na culpa.

Considere isso: uma semana após o episódio com Carneiro, Mourinho surpreende o vestiário ao substituir Terry, o eterno zagueiro com presença confirmada durante 90 minutos, no intervalo da partida, uma atitude que, segundo um antigo funcionário do Chelsea, “fez parecer que, como José não podia brigar com a médica, ele brigou com o capitão”.

Confrontar o líder do time. Atacar uma funcionária do clube. Divergência com a jovem estrela do elenco (dessa vez é Eden Hazard). A defensiva de Mourinho chega ao ponto dele exigir aprovar todos os conteúdos sobre a equipe a serem postados no site do Chelsea.

Mourinho renovou o contrato com o Chelsea em 2016, mas — pode me interromper se já ter lido isso antes — ele sai do clube poucos meses depois, com o resultado da sua última crise superando ao que aconteceu em Madrid.

“José está acostumado a vencer”, diz Carvalho. “E quando não ganha, fica um pouco mais difícil conviver com isso”.

E, mesmo assim: não pode ser tão simples quanto perder, certo?

Certo?

Comandar o Manchester United é supostamente um renascimento para Mourinho, que assume o cargo em 2016 e herda um clube que vem (relativamente) definhando após a aposentadoria de Alex Ferguson, passando pelos tempos conturbados de David Moyes e Louis van Gaal. Acredita-se que Mourinho, já tendo sido um gênio, vai fazer o United voltar a ser a princesa do esporte.

Não aconteceu. O United foi campeão da Europa League em sua primeira temporada, o que obviamente é bom, mas parece um prêmio de consolação e foi mais emocionante quando Mourinho foi campeão com o Porto.

E na temporada passada, o United foi vice-campeão da Premier League, perdeu a final da Copa da Inglaterra e foi eliminado nas oitavas-de-final da Liga dos Campeões, uma situação que ficou ainda pior graças à impaciência dos torcedores que querem a volta do futebol ofensivo e incisivo da época de Alex Ferguson e ficam indiferentes ao estilo morno e ensaiado que sempre parece terminar os jogos em empate. Seus jogadores também reclamam sobre isso. Com a queda, os resultados decepcionantes ficam cada vez mais frequentes e a desolação — e isolamento — de Mourinho aumentam.

Fora do campo, Mourinho se aprofunda ainda mais sobre si mesmo. Faria foi embora e a permanência de Mourinho no The Lowry, com sua família a centenas de quilômetros, se arrasta. Mesmo em uma espaçosa suíte, as paredes de qualquer hotel começam a se fechar e, assim como acontece com pessoas que passam muito tempo isoladas, a lista de reclamações de Mourinho ficam cada vez maior.

É como contar flocos de neve em uma nevasca: os árbitros trabalham contra ele. Os técnicos adversários são ingênuos ou arrogantes. As seleções dos jogadores não respeitam as necessidades do clube. Durante o jogo contra o Wolverhampton no Old Trafford, Mourinho repreende um dos paramédicos sentado atrás do banco do United, pois o jovem devolveu uma bola aos jogadores ao invés de ter entregado a ele. Até mesmo o trânsito se tornou um problema. O ônibus do time chegou atrasado duas vezes devido ao tráfego carregado em torno do estádio.

Durante um dos congestionamentos, Mourinho colocou um capuz e foi andando até o estádio ao invés de continuar no ônibus com seus jogadores — uma façanha notável, tanto por ser uma novidade quanto para permitir que Mourinho se tornasse uma metáfora de si. “Ninguém me reconheceu”, ele disse mais tarde.

Surgem teorias sobre o que possa ter levado Mourinho a este ponto, e uma delas — revelada por um amigo de Mourinho — é que boa parte disso remete a Guardiola.

Essa teoria se baseia na ideia que Mourinho, apesar do seu sucesso, tem sido muito azarado durante sua carreira.

Por mais estranho que possa parecer, pense assim: Mourinho foi abençoado em ter dois dos maiores sonhos do futebol — comandou o Real Madrid e o Manchester United — e as duas situações acabaram da pior maneira possível, muito por causa de Guardiola.

No primeiro caso, Mourinho assumiu o Real Madrid no pico de uma crise, na era que foi dominada por Guardiola e seu Barcelona, que jogavam de uma maneira tão inovadora e dominante que é considerado o melhor time da história do futebol. Anos mais tarde, no United, Mourinho assumiu o time em meio a um período conturbado (apesar das décadas anteriores terem sido vitoriosas) e mais uma vez está contra Guardiola, do Manchester City, um time historicamente fraco que subitamente se transformou em uma potência.

No City, Guardiola conta com os recursos infinitos da realeza oriental e com um modelo de negócios que é a definição de um clube de futebol moderno. No United, tradicionalmente o alfa de Manchester, Mourinho vai literalmente andando até o estádio sozinho.

No United não há um departamento moderno de operações sobre futebol e nem uma equipe para avaliar dados analíticos. Há apenas um presidente, Ed Woodward, que é um empresário e não um diretor esportivo. De muitas formas, o United é o mesmo clube de 2013, quando Ferguson se aposentou.

“A estrutura não é a ideal para o José”, diz o amigo de Mourinho. “Isso faz com que ele se sinta atacado. E quando se sente atacado, ele ergue os punhos. É isso o que está acontecendo — ele anda com os punhos erguidos o tempo todo em Manchester”.

Essa é uma teoria compreensiva sobre Mourinho, mas passa a ideia de que Mourinho, o eterno criador de guerras, se sente constantemente atacado. Suas táticas, que já foram revolucionárias, se tornam cada vez comuns. Suas técnicas motivacionais, que já foram impenetráveis, não funcionam com essa nova geração de jogadores. Todos possuem um dossiê sobre seus adversários e o jogador moderno quer se expressar dentro de campo, quer correr livremente e criar, quer ser desenvolvido.

Pogba e as outras estrelas da geração não querem ser orientados como se fossem marionetes e, mesmo assim, Mourinho quer controlá-los. O fato de não conseguir o deixou tão ressentido a ponto disso refletir em todos os aspectos do seu trabalho.

“Ele deixou de ser uma esfera de energia na beira do campo, alguém que todos queriam assistir, por ter um estilo atraente; esse rosto ficou desgastado”, diz um antigo colega de Mourinho. “E acho que os jogadores e torcedores se apegam a isso. Como fariam diferente?”

EM SETEMBRO, APÓS O UNITED ser atropelado por 3×0 contra o Tottenham, Mourinho foi até a entrevista coletiva e respondeu aleatoriamente uma pergunta sobre os torcedores terem ido embora mostrando três dedos que, para ele, representam o placar do jogo, mas que “também significa três títulos e eu venci a Premier League mais vezes que os outros 19 técnicos juntos. Três para mim e duas para eles. Duas”. Ele continua: “Respeitem o homem. Respeitem. Respeitem. Respeitem”. Depois foi embora da entrevista.

Este é um tema com o qual Mourinho se acostumou. Mourinho usa o mesmo gesto quando o United deixa escapar a vitória contra o Chelsea e os torcedores da casa o provocam (lembrando-os que venceu os três títulos para eles), e faz o mesmo quando o United está sendo derrotado pela Juventus em partida válida pela Liga dos Campeões, no Old Trafford, e a torcida italiana começa a provocá-lo (lembrando-os que conquistou três títulos na Inter de Milão).

Cada vez que mostra os dedos, Mourinho sorri orgulhoso, como se ensinasse os torcedores que se esqueceram de sua mágica. Na primeira vez, foi interessante. Porém, na terceira vez já não é mais difícil imaginar se Mourinho não está se cegando pelas memórias de sua própria grandeza, achando difícil não sentir que não é muito diferente do jogador de basquete do colegial que ainda usa um agasalho esportivo dois anos após se formar.

É uma transformação notável: um homem que passou sua carreira inteira atacando fora de campo (enquanto se defendia dentro dele) se tornou intensamente defensivo sobre seu legado, métodos e responsabilidades. Ele lamenta a “caçada humana” que o persegue, diz que vai ser culpado pelo Brexit ou pelas chuvas e — sendo difícil imaginá-lo acreditando em tal coisa no início de carreira — diz que “às vezes, as coisas não estão apenas nas mãos do técnico”, quando perguntado sobre a falta de espírito do United.

Acontece algo novo a cada semana. Outro problema, outro menosprezo. O ar em torno de Mourinho se tornou enigmático a ponto de qualquer assunto sobre ele parecer venenoso.

Xabi Alonso, um devoto defensor de Mourinho, não responte às várias mensagens solicitando uma entrevista sobre seu ex-treinador. Massimo Moratti, que contratou Mourinho na Inter de Milão, se recusa a falar sobre ele. Assim como Carlos Carvalhal, que estudou para obter a licença de técnico junto de Mourinho.

Andre Villas-Boas, outro ex-auxiliar, escuta educadamente uma pergunta sobre José Mourinho no telefone e diz: “Prefiro não falar sobre ele”, pede desculpas e desliga.

Tanto Mourinho quanto os dirigentes do Manchester United se recusam a dar entrevistas.

No fim de outubro, em uma entrevista coletiva, Mourinho diz: “Quero ficar até o final do meu contrato e gostaria de ficar por mais tempo”.

Por vários motivos, esse sentimento é visto com grande descrença pública. Primeiro, se isso fosse acontecer, significa que Mourinho teria treinado o United por, no mínimo, quatro temporadas — seu maior tempo em qualquer time na carreira.

E em segundo lugar, a declaração parece supor que ficar no United ou não depende da sua vontade. Em uma coletiva antes de uma das partidas do City antes do Dia das Bruxas, Guardiola — sempre ele — diz acreditar que há apenas cinco times brigando pelo título da Premier League: City, Liverpool, Chelsea, Tottenham e Arsenal. “Não tenho dúvidas sobre isso”, diz ele, sendo mais um lembrete que o United, o time com mais que o dobro de títulos ingleses, não está na conversa.

Mourinho conseguiria a façanha de reverter a situação? Ele conseguiria galvanizar um grupo de jogadores que está contra ele, trabalhar com uma torcida dividida sobre ele e salvar uma temporada que já parece perdida? Talvez. Porém, é difícil imaginar o que será do seu futuro se fracassar e for demitido. No passado sempre havia um caminho claro a ser seguido. Desta vez não há nada certo.

Entre os maiores times europeus, o Paris Saint-Germain é um candidato óbvio para Mourinho, mas o PSG contratou um novo técnico no início da temporada. Uma mudança para a Alemanha em um clube como o Bayern de Munique nunca pareceu ideal. Muitos acreditam que ele será o técnico de Portugal um dia, mas se Mourinho não gostou de perder seus jogadores por algumas semanas após a Copa do Mundo, como ele suportaria controlar sua equipe durante as esporádicas datas Fifa?

Talvez ele volte para a Itália. Ou Portugal Ou talvez vá para a China ou Oriente Médio receber um excelente pagamento. Ou talvez até mesmo ao Real Madrid, que já demitiu um técnico esta temporada e estará em busca de alguém permanente para o cargo. (Antes do time escolher um técnico interino, um dirigente do Real disse que Mourinho “é possível, mas não provável”).

Tudo indica que Mourinho não irá desaparecer. Ele não dará um passo para trás. Ele não vai murchar. Ele gosta do trabalho, gosta da guerra, gosta de mostrar seus três dedos para fazer as pessoas se lembrarem de onde ele veio e o que conquistou. É por isso que ele ainda mora no The Lowry.

“Futebol é a vida dele”, diz Lampard, “e ele conquistou muito sucesso. Não acho que [conquistar] tanto sucesso te faz parar de querer cada vez mais… acho que faz você querer mais”.

É claro que sim. É por isso que o “Special One” continua na perseguição. Porque ele continua trabalhando. É por isso que antes das 8:00 na manhã seguinte à derrota para o Derby County, após poucas horas de sono e discussões sobre as probabilidades de ser demitido do United em breve, Mourinho desce de elevador. Ele atravessa o lobby, passa pela porta de vidro da entrada, desce as escadas e se acomoda no assento de couro de um sedã que o espera. Ele está a caminho de Carrington, centro de treinamento do United, para mais um dia de prática, para ficar no centro do espetáculo mais uma vez.

É tudo o que Mourinho sabe. O carro se distancia e ele olha pela janela. O assento ao seu lado está vazio.

Confira o texto original, em inglês, que foi inicialmente publicado em 11 de maio, clicando AQUI