11.11.1918

Amanhã, exatamente às onze da matina na Europa, 8h aqui, estaremos ou deveríamos estar celebrando também os 100 anos do Armistício que pôs fim à 1ª Guerra Mundial. Afinal, fomos o único país do continente americano, além dos Estados Unidos, a abandonar a neutralidade e declarar guerra à Tríplice Aliança.

Sem numeração até estourar a segunda, a Primeirona (apud Verissimo) viveu uns 25 anos sendo chamada, prosaicamente, de “a Grande Guerra”. Não confirmou a esperança geral – ou só dos ingênuos – de erradicar para sempre os conflitos armados entre nações. Acabou, sim, com pelo menos dois impérios, baralhou o mapa-múndi e germinou a ascensão de Hitler. Sua elevada toxidez contaminou todo o século 20 e as quase duas décadas que deste já consumimos. 

Quatro anos atrás, falei aqui de seu início, de suas frágeis motivações (superáveis rusgas à parte, prevalecia a harmonia entre os monarcas que reinavam no continente europeu, alguns, inclusive, parentes consanguíneos), de sua estapafúrdia eclosão em Sarajevo e da inigualável carnificina que produziu: mais de 9 milhões de mortos em combate, 21 milhões de feridos, legiões de mutilados — sem contar as vítimas civis.

Falei ainda do engajamento do Brasil depois que submarinos alemães afundaram navios de nossa marinha mercante e o governo Venceslau Brás compenetrou-se dos bons negócios que perderíamos com os americanos e os países da Entente caso continuássemos em cima do muro. Em outubro de 1917, aderimos. Tivemos uma participação modesta e periférica no combate aos boches do Kaiser Guilherme. Enviamos missão naval às costas africanas, incorporamos 13 pilotos à britânica Royal Air Force, despachamos um contingente de médicos para Paris, e ficamos por aí.

Quarta-feira passada fez 100 anos que os alemães entregaram os pontos. Seus dois principais parceiros (os turcos otomanos e os austro-húngaros) haviam capitulado, seus soldados mal se aguentavam de pé, o povo alemão, distanciado do conflito, já sentia os efeitos mais rigorosos do isolamento, nenhum mais implacável que a fome que por lá grassou. 

Às 20h de 7 de novembro, em La Capelle, nordeste da França, os plenipotenciários fardados da Alemanha, bandeira branca na mão, pediram um cessar-fogo imediato. O durão marechal Ferdinand Foch, comandante em chefe das forças aliadas, como que para vingar-se pela guerra ter-se desenrolado quase toda em território francês, ordenou que os ataques prosseguissem. 

De todo modo, cabalística e pontualmente às 11h do dia 11 do 11º mês do ano, o armistício foi assinado. No vagão de um trem que servira ao conforto de Napoleão 3º. Um ritual seco e sem apertos de mão. 

“Os alemães lutaram por território, os ingleses por mar, os franceses por patriotismo e os americanos por suvenires”. Foi esse o resumo da guerra que o capitão Harry Truman, 30 anos depois vice e sucessor de Roosevelt na Casa Branca, ouviu de um oficial francês, sem dele discordar. Nela todos, a rigor, saíram perdendo — este o consenso entre os historiadores. 

E perderam porque o Tratado de Versalhes, carnê de punições à Alemanha assinado em junho de 1919, prolongou-a por décadas a fio, propiciando perniciosos arranjos geopolíticos na Indochina, no Oriente Médio (a ocupação da Palestina, a entrega da Síria à França e a Mesopotâmia aos britânicos). 

Alemanha foi, sem dúvida, humilhada, mas não encharcou de sangue suas terras. A única ocupação aliada ocorreu na Renânia, para tão somente isolar a França. Segundo Margaret MacMillan, das mais acatadas autoridades no assunto, as reparações impostas à Alemanha foram menos pesadas que o alardeado e explorado, notadamente por Hitler. 

A França recuperou a Alsácia-Lorena, as minas de carvão da região do Saar; a Polônia levou o porto de Dantzig/Gdansk; a Checoslováquia ganhou a Boêmia e os Sudetos (retomados por Hitler em 1938); a Dinamarca abocanhou dois ducados; a Lituânia, um porto. Preocupados com a provável bancarrota e uma possível bolchevização do país (a Baviera proclamou-se uma república socialista), os aliados abateram as indenizações da Alemanha. Pleiteavam US$ 362 bilhões, fecharam por 34 bilhões em marcos de ouro (52% para França, 28% para Grã-Bretanha, o restante dividido entre Bélgica, Itália e Estados Unidos), depositados entre 1924 e 1931, com empréstimos facilitados por Wall Street.

A banca internacional salvou a Alemanha naquela base. Faturou horrores em juros, propinas e comissões. Para saber mais: “Wall Street and the Rise of Hitler”, de Anthony C. Sutton. Como se ganhou dinheiro e fizeram-se negócios em cima dos milhões de cadáveres fabricados pela guerra-para-acabar-com-todas-as-guerras. Henry Ford financiou armas e uniformes para os soldados de Hitler, um dos motivos da Grande Cruz da Águia Alemã com que o Führer o condecorou em 1938. 

John Foster Dulles, futuro secretário de estado de Eisenhower, era CEO do poderoso escritório de advocacia Sullivan & Cromwell e foi quem estruturou os acordos que desviaram investimentos para as empresas IG Farben (que tinha o monopólio da produção química na Alemanha nazista) e Krupp (fabricante de armamentos, um dos sustentáculos industriais do 3º Reich). Allen Dulles, irmão de Foster e chefe da CIA nos governos de Eisenhower e Kennedy, era um dos sócios da S&C quando seus safos e bem relacionados advogados conseguiram livrar os laboratórios Merck de um confisco. 

Exatamente às 11h da manhã do dia 11 de novembro de 1918 nasceu em Londres um menino, a quem deram o algo exótico mas justo nome de Pax (paz, em latim). Justo porém ominoso. Vinte e um anos depois, Pax seria um dos primeiros soldados ingleses a morrer na 2ª Guerra, a Segundona.